De brincadeira se diz que a pior coisa que podemos ouvir de um profissional ambulante é o atestado de garantia da qualidade do produto, assegurado pela famosa frase ''qualquer coisa, volte aqui que a gente troca''. Como na maioria das vezes os ambulantes andam de rua em rua, a chance da gente encontrá-lo novamente é a mesma de alguém topar com o lendário pé-grande.
Chistes à parte, a profissão é regulamentada desde 1940. Com o sumiço de ofertas de emprego com carteira assinada está se tornando alternativa de renda para pessoas que perderam o posto no mercado formal.
Em Londrina, eles estão espalhados por todos os lugares. Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), porta de fábricas, no Calçadão, enfim... onde o povo está.
Essa profissão tão antiga, que atravessou desertos, disseminando histórias e culturas, entra para salvar o orçamento familiar, chegando ao início do século 21 não só como alternativa de renda mas opção de vida - dois perfis diferentes de um mesmo profissional que, muitas vezes, conquista a freguesia no grito.
Antonio Carlos Dias, 35 anos, chegou a fazer um curso técnico de enfermagem em Itajubá (MG), cidade natal, mas trocou os corredores dos hospitais, onde trabalhou durante cinco anos, pelas estradas.
Vendendo artesanato, o rapaz conheceu todas as capitais brasileiras e países da América do Sul. As técnicas de transformar sementes ou pedras em colares, anéis e pulseiras, aprendeu ainda na infância com alguns amigos, que esperavam pela Era de Aquários.
''Me casei pela primeira vez aos 19 anos. Parei de fazer artesanato porque achava que não renderia o suficiente para sustentar uma família. Foi quando fui trabalhar no hospital. Com o tempo vi que o artesanto me daria a possibilidade de ganhar dinheiro e de poder viajar'', afirma o artesão.
Ele se apega à Constituição Federal para alegar que, o quinto parágrafo do artigo nono garante que todo artesanto, manifesto cultural é isento de imposto.
''A lei protege a gente. A fiscalização é despreparada e não sabe diferenciar o artesanal. Foi por isso que conseguimos ficar na frente do Teatro Ouro Verde. Não existe lei municipal que passe por cima da lei federal'', justifica Dias, acrescentando ainda que a atividade é lucrativa e que por isso muitos estão imigrando da formalidade.
''Pago aluguel, água, luz e crio dois filhos com a venda de artesanto. Dá para lucrar com artesanato. Tanto que se a gente viaja, ao voltar, muitas vezes, criam feiras no lugar e dizem: ''Não, você não faz parte da feira''. O verdadeiro artesão tem que ir. Ao voltar, trazemos a cultura de lá de fora. Essa semente aqui, por exemplo, só tem no Acre. Eu levo e trago cultura'', avalia.
Dias é um dos trabalhadores ambulantes que escolheram a UEL para a comercialização de produtos (leia mais nesta página).

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