Professores também precisam de merenda
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de novembro de 2006
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Apenas duas semanas em vigor e a terceirização da merenda escolar já tem causado problemas nas escolas municipais. Pelo menos para os professores. É o que reclama a docente Terezinha Aparecida Enz Meli, que leciona no Colégio Municipal Egydio Terziotti, no Patrimônio Regina (Zona Sul).
Segundo ela, desde que a prefeitura contratou uma empresa para preparar a comida das crianças, os professores têm sido impedidos de sequer tomar um café com os alunos. ''Somos bóias-frias da educação agora'', desabafa.
O problema é maior, conta Terezinha, para os professores que ensinam nos colégios dos distritos. Sem tempo de almoçar antes de ir de uma escola a outra, eles acabam se alimentando mal ou, às vezes, nem comem nada. ''Antes não havia um controle rígido dos pratos e os professores comiam o que sobrava dos alunos'', relata.
No colégio Egydio Terziotti, uma nutricionista, responsável pela elaboração do cardápio, fiscaliza o almoço das crianças diariamente. ''Ela fica feito fiscal e prefere jogar fora o que sobra a dar para os professores'', indigna-se Terezinha.
Na Escola Municipal Professor Carlos da Costa Branco, no Jardim Piza (Zona Sul), os professores criaram um caixa para pagar pelo café, lanche e água mineral que consomem no colégio. Lá, assinala a diretora Dolores do Carmo Dias Marczuk, a merenda ainda não é terceirizada.
''Aqui professor nunca teve acesso à merenda dos alunos, mas não quer dizer que eles não possam experimentar'', diz. Segundo Dolores, diferente do que ocorre nas escolas distritais, os professores do colégio Costa Branco moram próximo ao local de trabalho e costumam almoçar em casa. ''Com a terceirização, a prefeitura paga por refeição, o que não justifica o professor comer na escola'', completa.
Na Escola Municipal Leônidas Sobrinho Porto, no Jardim Leonor (Zona Oeste), os professores também têm um caixa para o lanche, mas os que moram mais longe do colégio levam marmita. ''Como eu moro perto almoço em casa'', afirma a auxiliar de período Rosana Sakaguti Ferreira.
Segundo ela, a empresa responsável pelo preparo das refeições não permite aos professores nem esquentar as marmitas na cozinha da escola. ''A prefeitura poderia ter nos contemplado na terceirização, afinal trabalhamos diretamente com os alunos. Hoje a gente olha eles comerem, mas não come'', lamenta.
A gerente do Programa Municipal de Alimentação Escolar, Cristina Yoshida, explica que nunca houve merenda para professor. ''O recurso é determinado por criança e por dia letivo e o município paga por refeição.''
Ela reconhece que a alimentação precária dos docentes é um dos problemas da terceirização, o qual a prefeitura poderá remediar a longo prazo. Para Cristina, a situação se agrava na zona rural, mas ''é tudo questão de adaptação''. ''A prioridade, no primeiro momento, é garantir a qualidade da merenda para o aluno.''
Hoje, além do café da manhã e da tarde, os alunos das escolas municipais recebem almoço, com cardápio bastante variado. Segundo a diretora da escola do Jardim Leonor, Enelice Alves da Silva, agora as crianças têm sobremesa e frutas diariamente e também mais legumes e verduras.
Cristina Yoshida calcula que das 80 escolas municipais de Londrina, 50 já fornecem merenda terceirizada aos estudantes. O restante das refeições deverá ser terceirizado até o início do próximo ano letivo. ''Em algumas escolas, os professores se juntavam para comprar os alimentos, que eram preparados pelas merendeiras do município. Além de pagar o gás, eles também davam uma gorjeta para as cozinheiras'', recorda.
Com a terceirização, essa situação acabou, ''pois as merendeiras são funcionárias da empresa, contratadas para cozinhar apenas para os alunos'', conclui Cristina.


