Professores se desdobram para garantir renda
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terça-feira, 14 de outubro de 2003
Vanessa Navarro<br> Reportagem Local 
Ela perdeu a conta de quantas crianças passaram por suas salas-de-aula, mas as contas a pagar sempre foram calculadas na ponta do lápis. Com 63 anos, 36 deles vividos com um giz na mão, a professora Neuza Castro ainda se sente num grupo ''financeiramente privilegiado'': o tempo de serviço lhe deu direito a um salário melhor do que a média ganha pelos docentes que estão ingressando, hoje, no ensino público. Ela trabalha com alunos de 1 a 4 série do Ensino Fundamental no Colégio Estadual Albino Feijó Sanches, no Parque das Indústrias (Zona Sul de Londrina).
A regalia, contudo, não é suficiente para que Neuza descuide do orçamento. Nesta ''semana do saco cheio'', por exemplo, a professora aproveitou o tempo livre para dispensar a diarista e arrumar a própria casa. Além disso, ela está dedicando mais horas à confecção de bonecas, bolsas e outros trabalhos artesanais, que lhe garantem prazer e uma renda extra. ''Trabalho na escola em dois períodos, não tenho muito tempo hoje em dia. Mas quando me aposentar, vou mexer com isso para valer'', adianta. Planos que já poderiam ter sido concretizados, uma vez que a professora tem direito à aposentadoria há mais de dez anos. ''Nem sei explicar por que ainda não parei. Eu acho que a gente vicia em escola'', diz.
Vício também parece ser o motivo que leva o professor universitário Márcio Miranda, 47 anos, a percorrer os 540 quilômetros que separam Maringá de Foz do Iguaçu, em ida e volta, toda semana. Ele dá aulas nas duas cidades e, só nos fins de semana, visita seu verdadeiro lar, em Londrina. ''Fico mais tempo em ônibus e hotel do que em casa. Faz seis meses que não vejo minha diarista'', ironiza. A rotina já foi ainda mais puxada: até o ano passado, Márcio lecionava em Londrina, Maringá, Cascavel e Umuarama tudo numa mesma semana. O professor garante que o retorno financeiro e as oportunidades de crescimento profissional compensam.
''O ensino superior é o único campo em plena expansão no Brasil. As universidades investem em mim e me dão a chance de ganhar dinheiro fora, dando cursos e palestras pelo País'', aponta. Mas nem tudo são flores: Márcio tem saudades de exercer o jornalismo que deixou há três anos para ser professor e reclama que ''perdeu a identidade''. ''Você não pára em lugar nenhum, não tem mais contato com os amigos. Ainda bem que sou solteiro. Pessoas casadas não podem fazer isso que estou fazendo'', opina.
A professora Ana Mauricéia Castellani, 31 anos, prova o contrário. Dando aulas de química em nove períodos, distribuídos entre faculdades de Maringá e Campo Mourão, Ana ainda se desdobra para cuidar do marido e da filha, de dois anos. Diariamente, ela gasta duas horas só na estrada. ''Grande parte desse tempo eu deveria passar em casa, cuidando da minha filha. Mas se você não tem estabilidade, não pode ficar preso a apenas uma instituição'', justifica. Ana pensa em ter um segundo filho e já sabe que vai ter que traçar muito bem os planos. ''Vou ter que adequar a gravidez ao ano letivo'', conclui. (Veja amanhã na Folha: magistério ainda faz parte do sonho de muitos jovens)


