Curitiba - A inclusão de pessoas deficientes na educação é direito reconhecido e critério ditado pelo Estado, expresso em determinações legais. Dentre elas é possível citar a Constituição Federal de 1988, em que todas as pessoas devem ter direito à educação. Mais além, a Portaria 1.793, de 1994, recomenda a inclusão de conteúdos e disciplinas de educação especial nos cursos de formação de professores de nível superior (prioritariamente nas licenciaturas). Em 2005, o decreto 5.626 torna obrigatória a inserção de Libras nos cursos de formação de professores.
Com todas essas leis, de que modo é construída a formação de professores nos casos de licenciatura com relação à educação inclusiva? A psicóloga Shani Falchetti fez um estudo abordando os cursos de licenciatura em comum nas quatro universidades de Curitiba: Ciências Biológicas, Pedagogia e Educação Física.
O resultado não foi dos mais favoráveis. Apenas uma universidade possui disciplina específica de educação inclusiva nos três cursos pesquisados. São poucos os professores que recebem formação e matrizes curriculares a serem seguidas, vinculadas a essas disciplinas. ''Em todas as universidades é ministrada a Libras (linguagem dos sinais). Porém, alguns coordenadores acham que apenas isso é suficiente'', alerta Shani.
Durante a pesquisa, feita para uma dissertação de mestrado, a psicóloga encontrou instituições despreparadas para cumprirem as exigências do Ministério da Educação. ''Grande parte dos coordenadores não tem conhecimento das leis. Alguns sabem que elas existem mas não o que dizem'', conta Shani. Assim, não há um planejamento de conteúdo mínimo sobre o que deve conter nas disciplinas de inclusão.
Mas a culpa não pode cair somente nas universidades. ''O Estado impõe mas não dá subsídios à instituição'', explica Shani. Isso gera a falta de um programa eficiente para a preparação dos futuros professores. Em muitas ocasiões, a responsabilidade pela disciplina de inclusão acaba caindo em profissionais que não têm formação específica na área. ''Acredito que o psicólogo e o pedagogo com especialização na área sejam os realmente preparados para isso. O professor é limitado porque não teve embasamento no estudo nem informação e diretriz de como lidar com isso'', opina a profissional.
Controverso
No próprio ambiente acadêmico o assunto é controverso. Alguns profissionais entrevistados disseram ser a favor da existência de escolas especiais para alunos com deficiência extrema. Outros professores afirmam que os alunos não estão preparados para receber um colega com deficiência na sala de aula. ''A maioria fala que a inclusão é para alguns. A educação inclusiva ainda engatinha no Brasil'', diz Shani.
Na tentativa de avançar alguns degraus no assunto, algumas instituições criaram núcleos internos com programas de educação. Algumas coisas evoluíram. O antigo conceito de integrar se transformou no de incluir. O avanço existiu, mas nem por isso os problemas diminuíram. O Estado quer que a educação seja para todos, mas o processo é falho. A universidade tem dúvidas em como trabalhar e o problema persiste.
Sem investimento
A professora de graduação da disciplina de Libras, Lídia da Silva, acredita que não há um bom diálogo com os alunos dos cursos de licenciatura a respeito da educação inclusiva. Quando alguns deles se interessam pelo tema, acabam buscando mais informações em uma pós-graduação. ''A própria Libras só está contemplada nas grades (curriculares) por conta de uma lei que exige isso. Não há vontade social para haver inclusão'', opina.
Para Lídia, ainda não existe um programa de educação inclusiva eficiente para ser lecionado nos cursos de licenciatura. ''As universidades não têm feito investimentos para graduações destas áreas. Porém, todo professor um dia irá se deparar na sala de aula com um aluno deficiente'', alerta.
A profissional conta que não existe um ensino eficiente no setor e que o assunto é muitas vezes apenas ''pincelado'' no curso. Um exemplo é o próprio ensino da Libras. Lídia diz que para uma pessoa dominar a linguagem é necessário prática e estudo de aproximadamente dois anos. A disciplina que ensina Libras aos alunos de licenciatura dura apenas 40 horas/aula, o equivalente a duas aulas por semana durante um semestre letivo.

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