Professores pesquisam a qualidade de ensino
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de setembro de 1997
Lúcio Horta 
Londrina
Josoé de CarvalhoCristina Faria: nova perspectivaFugir dos modelos preconcebidos de avaliação e tratar da qualidade do ensino na escola pública sob uma nova perspectiva. Esses são os objetivos de um trabalho desenvolvido pela professora Cristina Faria Fidélis Gonçalves, do Departamento de Matemática Aplicada, em conjunto com professor José Fidélis, do Departamento de Matemática Pura, ambos da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Desde fevereiro, os dois - com a colaboração de estagiários do curso de Matemática - estão fazendo pesquisa em três escolas públicas de Londrina, de 1º e 2º graus, das regiões Norte, Sul e central.
O que temos hoje são coisas prontas: um grupo de cima define o que é qualidade. Muitas vezes ela é vista apenas pelo número de aprovações, o que não é suficiente. Então estamos fazendo justamente o contrário, diz Cristina Fidélis. Para se contrapor a essa tendência, a pesquisa procurou identificar principalmente o nível de satisfação das pessoas envolvidas no trabalho observando, no caso, professores e alunos. E fazer uma relação deste resultado segundo definição de qualidade proposta por cada um. Com todos os dados coletados, é que se começaria uma avaliação propriamente dita.
A pesquisa foi adaptada de um outro trabalho de Cristina para o doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina, intitulado Ergonomia e qualidade no serviço bancário: uma metodologia de avaliação. Neste trabalho, a pesquisadora pôde apontar os principais problemas enfrentados por funcionários e clientes, desde a eficiência do serviço, até dificuldades com segurança, limpeza e modelo arquitetônico. Foi possível provar a relação entre qualidade de vida no trabalho e qualidade do serviço/produto: quanto maior o grau de satisfação, maior também a qualidade do produto.
Usando a mesma metodologia, o trabalho nas escolas públicas começou tentando definir, através de questionário com questões abertas, o que é qualidade no ensino para alunos e professores. . Os pesquisadores montaram um esquema geral com as condições ideais no trabalho: no caso dos professores, eles associaram qualidade às condições ambientais - química (qualidade do giz, por exemplo) e física (ambientes térmico, arquitetônico, sonoro e luminoso) - e também às condições organizacionais (metodologia, comunicação, horários e turnos, formação, tecnologia e política salarial).
As maiores reclamações entre os professores, até agora, são o acúmulo de tarefas e a falta da hora-atividade, adianta Cristina Fidélis. Pelo menos no ensino básico público, os professores acabam mesmo tirando parte do tempo que poderiam dedicar à família ou a outras atividades particulares para, por exemplo, preparar aulas e corrigir provas. Já no caso do corpo discente, foram pesquisados alunos dos últimos anos de cada nível: 4ª e 8ª séries do 1º grau e 3ª série do 2º grau.
A partir dos primeiros resultados, os pesquisadores vão montar novo questionário (desta vez com questões objetivas) que será novamente aplicado em alunos e professores. Essa fase do trabalho vai trazer problemas do cotidiano de cada pessoa envolvida no processo educacional, como a biblioteca da escola, a visibilidade do aluno na sala de aula, a questão da hora-atividade, a qualidade do material utilizado nas aulas - enfim, uma espécie de radiografia apontando tudo o que for identificado como problema. A partir de então, cada escola poderá trabalhar as suas deficiências objetivamente, indo direto aos pontos de conflito.
Cristina Fidélis acredita que, até o início do próximo ano, já possa estar concluindo o trabalho e mostrando os resultados ao Núcleo de Educação de Londrina - já que as três escolas estão em pontos distintos da Cidade e por isso seriam bastante representativas.


