Logo no começo da tarde a fila só ia aumentando no salão da igreja do Jardim Monte Cristo (Zona Leste de Londrina). Muitas mulheres, algumas grávidas e várias com crianças de colo. Nenhuma reclamava de esperar, aliás, já esperaram tanto que estar ali era ainda ter esperança. Todas aguardavam o atendimento da equipe de advogados e estudantes de Direito do projeto ''Resgate da Cidadadania: uma questão de direito'', desenvolvido por docentes da Universidade Norte do Paraná (Unopar).
''Eu vim aqui, porque eu preciso de ajuda. Minha vida está muito difícil. Eu sou viúva e não consigo receber a pensão do meu marido. Tenho três filhos e um deles é deficiente. Também tenho um neto que eu ajudo a cuidar. Só que eu não consigo mais emprego por causa da minha idade e também não recebo a pensão'', contou a dona de casa Rita Pinto da Silva, 54 anos. Ela é uma das tantas pessoas atendidas pelo projeto que têm dificuldade em receber os benefícios previdenciários. ''São tantos os casos de gente humilde que não consegue receber os seus direitos, que esta área (previdenciária) é uma das que a gente mais atua'', explica o professor coordenador do projeto, João Batista Filho.
Ao todo seis professores atuam no projeto, além de diversos estudantes da Unopar, Universidade Estadual de Londrina (UEL) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC). ''Eles (os alunos) pedem para participar e nós aceitamos, porque atuar nessas comunidades é nossa obrigação enquanto cidadãos'', explica a professora Saadia Borba Martins. Os atendimentos acontecem a cada 15 dias na Zona Leste e também no Jardim Franciscato, na Zona Sul. ''Já estamos há oito anos com o projeto e, por ano, estimo que são atendidos mil casos. Todos sem cobrar nada'', enumera o coordenador.
Graças à gratuidade que Maria (nome fictício) terá a oportunidade de provar a paternidade do filho. ''Ele (a criança) tem oito anos e o pai diz que só vai reconhecer com o exame. Ele sabe que o filho é dele, mas não quer pagar pensão.'' Segundo afirma, o exame de DNA custaria cerca de R$ 700,00 se ela tivesse que arcar com as despesas. Para tentar conseguir a prova que precisa, a dona de casa andou cerca de uma hora a pé, com os dois filhos, para ser atendida. ''Eu moro no bairro vizinho, mas não poderia perder essa oportunidade. Eu não quero a pensão, porque graças a Deus consigo sustentar meus filhos, mas eu não posso ver meu filho crescer sem ter o nome do pai.''
De acordo com os professores, casos de direito penal, previdenciário, da família e trabalhista são os mais comuns. ''Existem situações em que o filho da pessoa está preso e, por falta de advogado e pela condição social dela, ela fica sem conseguir visitá-lo. Dá para acreditar? Então esse trabalho, além de ser um exemplo da função social de uma universidade, é uma questão de obrigação para nós, professores'', destaca João Batista.
A dona de casa Viviane Ferreira, de 18 anos, esparava na fila para dar entrada no processo de separação com o marido. ''Estamos casados há sete meses, mas não deu certo. Eu espero que eles possam me ajudar.''

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