'Professora, vai fechar a nossa escolinha'
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sábado, 09 de dezembro de 2006
Guilherme Borges<br>Reportagem Local 
Imagine um circo que aos poucos vai perdendo seu encanto. Um dia o leão é devolvido ao zoológico, os trapezistas decidem pintar rodapés, o mágico viaja à Europa e o palhaço, que nunca deixará de ser palhaço, anuncia no jornal: oferece-se serviços de alegria e diversão. E então, circo sem palhaço não é mais circo. Assim como colégio sem criança.
Na Escola Estadual Reverendo Jonas, na Região Central de Londrina, o corre-corre nos horários do intervalo cessou. Na próxima terça-feira, a última turma de 4 série do Ensino Fundamental se forma e encerrará a história de 53 anos da instituição. ''Este prédio pertence à 1 Igreja Presbiteriana Independente de Londrina, que agora precisará dele. Como não houve outra resolução por parte do Estado e do município, o colégio terá que ser fechado'', afirma a diretora, Olésia Santoni de Lima.
Na verdade, o processo de fechamento da escola começou há quatro anos, com o fim da oferta de vagas para a 1 série. Depois foram sendo fechadas a 2, 3 e por fim a última série. ''Faz tempo que eles falavam que ia fechar, mas nunca fechava. Teve uma época em que acreditávamos que ela ficaria aqui, mas agora chegou o momento. Vamos ver para onde nós vamos'', resigna-se, com olhos marejados, a professora Naid Melo de Moura, que há 20 anos trabalha na Reverendo Jonas.
Ela conta que os antigos alunos, hoje já formados - alguns universitários, inclusive - a encontram no site de relacionamento Orkut e falam: ''Professora, vai fechar nossa escolinha!''. Em sala de aula, os pequenos também tratam do assunto. ''É lógico que essa turma sente, porque os alunos refletem a expectativa da família. E esta escola é pequena, mas sempre foi muito procurada. Então eles falam: ah professora, minha irmãzinha não vai poder estudar aqui?''.
A escola foi construída pelo Reverendo Jonas Dias Martins, que tinha como ideal cristão, a instalação de uma escola ao lado de cada igreja. A que ele fundou, chegou a ter 400 alunos estudando em três turnos.
Para as formandas da 4 série, Lana Carolina Santos de Oliveira e Letícia de Oliveira Leonel, ambas com 10 anos, o que mais fará falta são as professoras. ''A bagunça e os amigos também'', completa a primeira. Entre as histórias que nunca serão esquecidas, elas contam a vez em que vários colegas entraram escondidos no quarto onde ficam os materiais de limpeza e fizeram uma ''grande faxina''.
No dia da formatura - que será celebrada nesta terça-feira, às 19h30, na sede da igreja (Rua Mato Grosso, 601)-, elas pretendem se divertir bastante. ''Vai ser alegre e triste ao mesmo tempo'', assegura Letícia. ''Vai ser legal porque a gente vai para a 5 série e triste porque a escola vai fechar'', resume a colega.
Para a diretora, este dia também será paradoxal. ''Eu nem consigo escrever o discurso. Quando entrei aqui, em 1991, já falavam que o colégio ia fechar. Só não imaginei que este dia chegaria e eu estaria como diretora''. Para ela, o pior é pensar em passar em frente à escola e não ver mais o prédio ou as crinças brincando. ''Tem dias que nem durmo direito'', confessa.
Mas nem tudo é tristeza. ''Temos que olhar pelo lado bom também. Essas crianças vão para colégios maiores, ter contato com coisas novas, vai ser importante para o desenvolvimento delas. E a vida vai continuando. Nunca deixaremos de ser professoras delas'', enfatiza Naid.


