A criação de cursos de pré-graduação, o uso das notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como critério para o ingresso nas universidades e o fim do vestibular. Estas são as propostas do professor José Carani, ex-diretor do Centro de Ciências Exatas (CCE) da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A meta é criar condições para que os estudantes de escolas públicas possam ter a chance de entrar numa instituição pública de ensino superior.
  ‘‘O projeto pretende dar condições para todos os cidadãos, já que as oportunidades existem. Hoje, não existe sistema pior de seleção do que o brasileiro, que é altamente elitista, e seleciona os estudantes pelo treinamento e pelos recursos que as famílias podem proporcionar aos estudantes’’, avalia Carani.
  Aposentado do Departamento de Matemática da UEL, o professor explica que o principal instrumento de avaliação no novo método seria o Enem. A nota serviria para facilitar o acesso aos cursos superiores. Os aprovados poderiam entrar nos cursos de pré-graduação específicos, no qual estudariam matérias básicas da carreira escolhida.
  Os aprovados não teriam, no entanto, a garantia de terminar o curso. Seria necessário estar entre os melhores alunos para passar ao ano seguinte. Os estudantes que não conseguissem receberiam um certificado para buscar vaga em outra universidade.
  Com isso, o número de vagas ociosas cairia, uma vez que a experiência do professor mostra que a maior parte das desistências ocorre ainda no primeiro ano. O projeto prevê que o número de vagas nos cursos de pré-graduação seria três vezes maior do que o atual.
  A matemática, segundo Carani, é simples. Um curso com 20 vagas ampliaria para 60. As estatísticas mostram que, em média, um terço (ou 20 alunos) dos alunos desiste. Os 20 estudantes com classificação intermediária buscariam vaga em outras instituições ou ganhariam mais uma chance para tentar entrar na UEL no ano seguinte. Os 20 classificados prosseguiriam os estudos.
  ‘‘Não aceito o argumento que não há dinheiro para ampliar as vagas porque as vagas ociosas hoje custam muito mais para o Estado’’, argumenta. Ele ressalta que a evasão universitária média é de 30%. Deste total, metade dos alunos desiste entre o primeiro e o segundo ano.
  Carani destacou o fato da Universidade Federal do Paraná (UFPR) ter adotado a classificação do triplo de vagas para os cursos de matemática, estatística e matemática industrial.
  Para ele, a aplicação do sistema depende apenas da sensibilidade social e da vontade política do novo reitor da instituição. ‘‘Hoje, a universidade pública é um castelo medieval murado, que baixa a porta para uns poucos privilegiados’’, critica. Com a proposta de Carani, esse obstáculo pode ficar um pouco mais fácil de ser transposto.
  A coordenadora de processos seletivos da UEL, Kátia Mortari, disse que não tem conhecimento oficial da proposta e preferiu não opinar sobre o assunto.

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