Professor lembra o aniversário em que acabou refém
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quinta-feira, 11 de dezembro de 1997
Carina Paccola 
Londrina
Milton DóriaMás recordaçõesO professor Brandão na agência Centro do Banestado, ontem: Tive medo de ser baleado pelas costas Todos os anos, no dia 10 de dezembro, quando o professor de Educação Física Jaime Gonçalves Diniz faz aniversário, ele se lembra do aniversário de Londrina. De uma maneira, porém, nada feliz. Faz dez anos que outro fato vem à lembrança do professor no aniversário dele. No dia em que completava 51 anos, em 1987, Brandão, como é mais conhecido, estava dentro da agência centro do Banco do Estado do Paraná (Banestado) quando aconteceu o famoso assalto-sequestro. Sete homens encapuzados deram voz de assalto, numa agência lotada, em dia de pagamento, e saíram com 30 milhões de cruzados novos, protegidos por 12 reféns.
Paulistano, radicado na Cidade desde 1947, Brandão nunca mais vai esquecer aquele dia. Ele levantou-se cedo, foi à Universidade Estadual de Londrina (UEL) - onde até hoje dá aulas de basquete - e resolveu ir ao banco sacar dinheiro para comprar um bolo. A intenção era voltar à UEL e comemorar o aniversário com os colegas de trabalho, como era comum acontecer entre eles.
Às 10 horas, Brandão estava numa fila enorme no banco. Por volta das 11 horas, o professor ouviu um tiro. De repente, a palavra mágica: É um assalto! Senti meu corpo esfriar, conta. O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi como sair daquela situação. Brandão deitou-se no chão, como as outras 300 pessoas que estavam na agência. E o pânico tomou conta dele.
Brandão se recordou do grande acontecimento daquele ano: em agosto, ele havia passado no concurso público da UEL. Foi uma das melhores satisfações da minha vida. E ali, no banco, recebia um choque no sentido contrário. Tive muito medo de morrer.
Do chão, o professor viu quando Moreno (o assaltante Manuel Antônio Rodrigues Filho, que cumpre pena na Penitenciária Estadual de Londrina até 2015) passou pelo banco, armado, e tentou acalmar as pessoas. Não vai acontecer nada. Queremos o dinheiro. Cadê a b... desse gerente? Há uma década essas palavras não saem da cabeça de Brandão.
Segundo ele, o gerente demorou muito a aparecer. Depois de umas duas horas que estávamos ali, a polícia se encontrava do lado de fora. Hipertenso, o professor passava mal. Sentiu-se um pouco aliviado quando o repórter da Folha Paulo Ubiratan se propôs a conversar com os assaltantes e entrou na agência. Pensei que a tensão ia ser amenizada. Ubiratan sugeriu a liberação das mulheres e crianças que estavam na agência.
Uma hora após a saída delas, Brandão tomou coragem e falou com Moreno. Pedi para sair. Expliquei que tenho pressão alta e disse que seria um grande favor ele me deixar sair. Quando Moreno olhou para ele, Brandão ficou com medo. O assaltante pediu que esperasse um pouco. Logo depois, o assaltante - Moreno era considerado líder do grupo - autorizou a saída de Brandão e de um senhor mais velho.
Os 20 metros que separavam o professor da porta da agência pareciam intermináveis. Não chegava nunca. Tive medo de ser baleado pelas costas. Quando pôs os pés para fora, policiais o conduziram até a guarita policial que existia no Calçadão. Aí me deu uma tremedeira e comecei a chorar. Bebi um pouco dágua e me acalmei. Nisso, já eram duas da tarde.
O carro do professor ficou preso no estacionamento do banco. Brandão encontrou um aluno do colégio Universitário, onde também lecionava, que lhe deu uma carona até sua casa, no conjunto Castelo Branco. Sem dinheiro, não pude comprar o bolo. Brandão voltou à UEL por volta das 16 horas. Meus amigos ficaram aterrorizados. Aquele aniversário ficou sem comemoração.
Solteiro, Brandão morava sozinho. Não dormiu direito aquela noite. Acompanhou pelo rádio e pela televisão o desfecho do assalto-sequestro, na manhã do dia seguinte, com a liberação dos reféns, a prisão de seis assaltantes e a fuga de um, conhecido apenas como Barba, que nunca mais foi encontrado.
Ontem, Brandão ainda não sabia como ia ser a comemoração dos 61 anos. Ia voltar à UEL e combinar uma cervejinha com os colegas. É só uma vez por ano. Tem que comemorar.
Dez anos depois, Jaime Gonçalves Diniz, o Brandão, estava, às 11 horas, na agência Centro do Banestado para a entrevista à Folha. Antes de ir ao banco, já tinha passado pela Universidade. Ele mantém a conta na mesma agência. Até hoje, toda vez que piso no banco, me lembro daquele dia. Só retiro dinheiro do caixa eletrônico. Ficou uma marca para sempre. Valorizo muito a minha vida.


