Paulo WolfgangAprendizadoRubem Alves: contrário à liberdade total para os alunos‘Professor deve acordar as inteligências’
Marcos Gouvea - Até onde deve ir a liberdade dos alunos dentro da escola?
Rubem Alves - Sou contra deixar a escola à mercê das crianças. Não concordo em permitir que apenas os alunos decidam o que querem aprender, como se o professor fosse um computador. O aluno vai lá, aperta o professor e o professor diz para alunos: isso é uma coisa completamente idiota. Por uma razão muito simples. Imagine que você pega um menino não conhece nada de música. Conhece Chitãozinho e Xororó, sei lá o quê. Aí você pergunta para ele: o que você quer aprender? Ele só pode falar sobre aquilo que já sabe. O aluno não tem informação sobre um imenso leque de possibilidades. Não sabe nada sobre canto gregoriano, música oriental, música indiana, barroco, clássico. Alguém tem dizer isso a ele. A experiência só de liberdade para o aluno é tola, porque ele não tem sequer condições de acessar os arquivos de conhecimento que existem na nossa tradição. A atitude correta é outra. Eu digo: ‘‘Você vai me ouvir, vai aprender comigo. Se não gostar tudo bem, mas terá que experimentar primeiro’’.
Marcos Gouvea - A questão está, então, na sensibilidade dos educadores?
Rubem Alves - Claro. Essa é minha opinião. Aliás, tudo que digo é opinião. Se alguém me perguntar quais as provas científicas, elas não existem. É chute. Aliás, diga-se de passagem, que a humanidade sobreviveu durante 80 mil anos - eu não sei quanto tempo o homem vive sobre a face da Terra - sem nenhuma ciência. Ele tinha conhecimento quase instintivo. Porque o nosso cérebro não é imbecil. Ele não precisa fazer estatística para chegar às conclusões. Hoje, na universidade, se você não tiver tratamento estatístico, se não tiver uma porção de gráficos... não valorizam seu trabalho. Esses dias, na Unicamp, numa reunião de uma pós-graduação, alguém fez a seguinte pergunta: ‘‘Uma tese de mestrado precisa ter quantos gráficos para ser aceita?’’ Isso é muito estúpido. Eu vou dar um exemplo, sobre o qual li há muitos anos. Numa universidade nos EUA, um professor fez uma pesquisa científica sobre as preferências de brinquedos de meninas e meninos. E chegou à conclusão que meninas preferiam bonecas e meninos preferiam carrinhos. Alguém então disse: ‘‘Eu sempre soube isso’’. E o professor respondeu: ‘‘Não. Você pensou que era assim. Somente agora você sabe que é assim’’. Isso é muito idiota. A humanidade sobreviveu durante 80 mil anos com a capacidade intuitiva que tem o cérebro de processar as informações e chegar à conclusões.
Marcos Gouvea - Dentro dessa visão, o que é a inteligência?
Rubem Alves - Um dos homens mais curtos de inteligência que eu conheço é um dos homens de memória mais prodigiosa que eu conheço. Ele sabe tudo. Só que falta a ele uma coisa fundamental: a capacidade de fazer dançar as idéias. A inteligência é uma dança entre os vários programas que nós temos dentro de nós. Aliás, não existe inteligência. Há inteligências. Você pode imaginar que todos nós somos uma casa com cem quartos e em cada quarto está dormindo uma inteligência. Você tem uma inteligência matemática, uma inteligência amorosa, uma inteligência poética, uma inteligência de humor, uma inteligência culinária, uma inteligência criminosa, você tem uma inteligência lógica para jogar xadrez... Todas essas inteligências estão lá, dormindo. A grande tarefa do professor é fazer o que diz a história, fazer o que o príncipe fez. Ele foi lá, deu um beijo na Bela Adormecida, e ela acordou. As inteligências precisam ser beijadas. Precisam ser provocadas. Quando ela é provocada, ela acorda. Ela é acordada não por um processo lógico, mas por um processo de amor. Amor é quando eu quero um objeto. Seja uma mulher, um homem, um objeto qualquer de conhecimento. Se você é fascinado por aquele objeto, dispara a sua inteligência. Você fica excitado. É um processo de excitação. Não um processo de excitação sexual, mas um processo que está na cabeça da gente.

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