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Arquivo FolhaRetóricaNelson Tomazi, da Universidade Federal do Paraná: ‘‘Percebi que quando o assunto é Norte do Paraná, o discurso já vem pronto’’Uma pesquisa inédita feita por um professor de sociologia da Universidade Estadual de Londrina está colocando em dúvida toda a história da colonização do Norte do Paraná. Com o título ‘‘Norte do Paraná - História e Fantasmagorias’’, a tese de doutorado defendida na UFPR pelo professor Nelson Dacio Tomazi contesta mitos sobre a ocupação da região e a própria formação do caráter da população local.
Pesquisando documentos e recolhendo depoimentos em quatro anos de trabalho, Tomazi afirma ter encontrado evidências de que muitas das ‘‘verdades’’ alardeadas sobre a colonização do Norte paranaense não passam de discurso vazio.
Ele diz que a idéia da pesquisa surgiu durante as viagens que ele fez pelo País. ‘‘Percebi que em qualquer lugar que se fosse, quando o assunto era Norte do Paraná, vinha um discurso pronto’’, explica.
A difusão do discurso que identificava o Norte do Paraná como uma ‘Terra da Promissão’, desbravada por pioneiros transformados em heróis da colonização, e feita de forma pacífica, segundo o professor, foi patrocinada pela Companhia de Terras do Norte do Paraná.
A empresa, de origem inglesa, comprou 515 mil alqueires de terra à leste do Rio Tibagi em 1925, e comandou o processo de colonização. Um dos mitos contestados na tese é o de que os pioneiros que começaram a ocupar a região no final do século passado, encontraram uma terra desocupada e virgem.
‘‘Nem a terra era vazia, nem a mata virgem’’, afirma Tomazi. Segundo ele, indícios arqueológicos demonstram que os índios das tribos Xetá e Kaigang já ocupavam a região havia pelo menos sete mil anos antes da chegada dos brancos.
‘‘O índio é marginalizado e esquecido na história oficial’’, diz o professor, explicando que os índios que não eram confinados em aldeias acabavam sendo mortos.
Outro mito que Tomazi diz derrubar com sua pesquisa é o de que a ocupação do Norte aconteceu de forma pacífica, sem conflitos por posse de terras. Antes da chegada da Companhia de Terras, caboclos e sertanejos ocupavam a região.
No patrimônio Três Bocas, distrito de Jataizinho que mais tarde deu origem a Londrina, já existiam duas fazendas. Com a cassação de todas as concessões de terra anteriores a 1930 pelo governo Getúlio Vargas, e a instalação da companhia, inúmeros conflitos entre posseiros e grileiros explodem em vários pontos do Norte do Estado.
A pesquisa também põe em dúvida a existência de uma identidade própria para a população do Norte. Para Tomazi, a figura do norte paranaense faz parte de uma construção ideológica que não bate com a realidade. ‘‘Não existe nenhum tipo de característica especial que defina ou identifique o norte paranaense como tal’’, diz.
Para o professor, a exemplo de outras tentativas de mobilização surgidas nos últimos anos, o ‘‘Movimento Pé-Vermelho’’, liderado pelo prefeito de Londrina, Antonio Belinati, explora os mitos em torno da história da região. ‘‘Esse é o discurso de quem está no poder e tenta manter-se nele impondo uma visão única e oficial’’, afirma Tomazi.

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