Professor decide dar férias eternas para os pés
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sábado, 15 de fevereiro de 1997
Apolo Theodoro 
Milton DóriaÀ vontadeRubem Cauduro no centro de Londrina: Nunca tive dor de cabeça ou qualquer problema grave de saúde Bituca de cigarro, prego enferrujado, cocô de cachorro e dançarinas desastradas - esses são os piores inimigos de quem anda descalço. Mas o professor de inglês Rubem de Oliveira Cauduro, que nas horas vagas também é mestre de caratê, diz estar tão acostumado a andar com os pés no chão que, só de reflexo, evita esses e outros obstáculos que se colocam no seu caminho. Aliás, bituca de cigarro ele não precisa nem evitar: dizem que apaga na ponta do dedão e não faz nem careta.
Mas, pior do que os percalços a que está sujeito, são as situações pelas quais vive passando o professor - umas engraçadas, outras nem tanto. Todas, porém, relacionadas com a sua mania de andar descalço, atitude que incomoda e deixa perplexos alguns interlocutores, assim que o vêem de pés no chão. Daí a ser confundido com mendigo, miserável ou ladrão, não precisa mais nada.
Aliás, outro dia mesmo, quando foi comprar equipamentos para a escola de inglês que está montando em Londrina, como franqueado da CCAA, aconteceu algo engraçado. Cauduro, como sempre, estava descalço. Foi o que bastou para o segurança da loja achar que ele era dono de alguns balaios que estavam colocados bem na entrada do estabelecimento. Cauduro relata:
- Tinha mais gente na loja, mas ele invocou comigo, queria que eu tirasse os balaios da porta. Eu pensei que ele estava brincando e até disse: Eu posso até tirar, mas onde você quer que eu coloque os balaios? Ele ficou bravo e me respondeu que os colocasse do outro lado da rua ou em qualquer lugar, mas tinha que tirá-los dali. E se o dono dos balaios ficar bravo comigo?, brinquei. Hum! O cara ficou mais bravo ainda, aí é que vi que ele não estava brincando.
Cauduro lembra que tudo acabou bem, assim que o segurança viu o tamanho da compra que ele estava fazendo.
Há algum tempo, em Ibiporã, uma blitz da PM interceptava veículos na saída da cidade. De repente, aproxima-se um Passat amarelo. Os PMs ficam de prontidão: o carro é da mesma marca, cor e, pra confirmar a suspeita, tão ou mais velho que o veículo utilizado por uma quadrilha em assalto naquela cidade.
Na abordagem, outra surpresa: o motorista tinha as mesmas características de um dos assaltantes e, além disso, estava descalço. Daí a confundi-lo com o bandido... Foi então que o motorista - Cauduro, claro -, sentindo que as suas explicações não valiam nada, que duvidavam da sua palavra, pediu aos PMs que ligassem para o Batalhão da Polícia Militar em Paranavaí onde, insistia, trabalhava como instrutor de caratê.
Verifica se ele está descalço, se tiver pode liberar que é amigo nosso, foi a resposta salvadora que veio do Batalhão de Paranavaí, cidade onde Cauduro trabalhou não só com os PMs, mas também com crianças carentes. Ele conta que foi fazendo natação - começou a nadar aos 5 anos -, praticando ginástica olímpica e, finalmente, no caratê que pegou o gosto pela coisa. Porém, como filosofia de vida, revela, foi por volta dos 15 anos que decidiu não mais colocar seus pés dentro de um calçado. Claro que, vez ou outra, ele é obrigado a manter o protocolo e calçar um sapato. Mas se aparece uma folguinha...
Que ele se lembre, as últimas vezes em que andou calçado foram na faculdade, no dia do casamento - Mas só na cerimônia religiosa porque não houve jeito de dobrar o padre - e nas vezes em que viaja de avião, quando calça uma alpargata pra tapear o pé. Cauduro diz também que, volta e meia, é barrado em festas e outros eventos. E, quando consegue entrar, na saída o problema é outro:
Ao me ver descalço, alguém sempre vem me avisar que esqueci os sapatos lá dentro, diz Cauduro, contando que, no momento, não tem nenhum par de sapato. Acabo dando para alguém, normalmente para um garçom no final das festas em que tenho que ir de sapato. Já fica ali debaixo da mesa. E, para quem queira seguir o seu exemplo, argumenta:
Além da economia proporcionada, segundo os entendidos, a troca de energia com a terra é muito importante para a mente, é muito saudável. Nunca tive dor de cabeça, ressaca e nenhum problema de saúde grave. Acho que é por andar descalço, afirma Cauduro. Todo mundo deveria andar descalço pelo menos uma hora por dia, mas na terra e não no asfalto.
Há os que ficam olhando para ele como se estivessem vendo um ser do outro mundo. Cauduro estranha que essas pessoas não tenham o mesmo comportamento com as crianças carentes que andam descalças pelas ruas. Pra isso, elas nem ligam, condena o professor. E destaca outro preconceito de que é vítima: Assim que eu apareço, às vezes eu vejo senhoras segurando a bolsa com mais firmeza ou, então, de medo, atravessam para o outro lado da rua.
Cauduro não esconde que quem não o conhece o considera meio biruta; que seu próprio pai nunca o achou normal e que até seu filho Athos, de 9 anos, cheio de tantas perguntas sobre o assunto - Por que seu pai anda descalço? - vive dizendo que o pai é louco. Para andar descalço, segundo Cauduro, é preciso ser meio independente dos padrões estabelecidos e outras formalidades, que no fim não querem dizer nada mesmo.
E, mostrando-se feliz da vida com a opção feita, Rubem Cauduro faz propaganda do seu hábito:
- Andando descalço, não tenho chulé, nem calo, nem unha encravada. Além disso, não preciso dar férias para os meus pés. Eles estão sempre de férias.


