Folha - O senhor acredita que o abate de aproximadamente 50 mil pombas amargosas será eficaz para acabar com o problema da superpopulação destas aves em Londrina?

Ranvaud - Será uma perda de tempo. Pode até reduzir localmente o número de pombas por um tempo, mas logo a população voltará ao número anterior e, possivelmente, até aumentará. Na região do Médio Paranapanema, por exemplo, nós constatamos que 80% dos machos das amargosas morriam antes de chegar à idade reprodutiva. O alimento estabilizava a população. Se você mata boa parte dos filhotes, remove a concorrência entre os que restam.

Folha - Como resolver o problema, então?

Ranvaud - Reduzindo a oferta de alimento. O aumento das colônias em São Paulo e no Paraná está associado às políticas agrícolas da segunda metade dos anos 60. O governo militar favoreceu muito o desenvolvimento agrícola e houve mudanças enormes nas paisagens, novas safras anuais. Isso deu uma quantidade gigantesca de alimento para aves gramívoras. E a mais eficiente a ter uma população explosiva, por questões evolutivas, é a Zenaida auriculata.

Folha - 65 municípios do PR obtiveram licença do Ibama para abater pombas na área rural. Mas, aparentemente, em nenhuma delas o problema se estendeu tão seriamente para o perímetro urbano quanto em Londrina. O que pode haver na cidade que atraia tanto estas aves?

Ranvaud - É uma excelente pergunta, mas ninguém sabe direito. Ocorreu o mesmo com os estorninhos nas cidades européias. É muito estranho porque na cidade tem um monte de barulho, luzes. Uma coisa eu garanto: uma vez que qualquer animal tenha adotado um hábito, um local para pernoitar ou percorrer, aí você tem um problema nas mãos, porque vai ser muito difícil tirá-lo de lá.

Folha - Há algo que se possa fazer para mudar isto?

Ranvaud - O manejo ideal seria providenciar para estas aves algum lugar que fosse relativamente próximo e parecido com aquele que elas tenham escolhido. Dessa forma, elas teriam uma alternativa. Você teria que ''convencer'' os animais eventualmente com redes a irem para esse lugar em que a sujeira deles não incomodasse. Porque o problema não é que são muitas. Quando pergunto, sempre tenho a resposta de que o problema são as fezes.

Folha - Essa medida já foi colocada em prática em algum lugar?

Ranvaud - Infelizmente não. Apresentei a proposta para a prefeitura de Ribeirão Preto (SP), que também enfrenta problema com pombas. Me chamaram lá, depois o assunto morreu. Isso é muito frustrante para mim. Seria interessante tentar estratégias de manejo, que serviriam de exemplo para outras cidades. É algo dispendioso, mas talvez as prefeituras como a de Londrina sejam justamente os lugares onde haja motivação suficiente para tentar.

Folha - Vários londrinenses têm dado sugestões para resolver o problema sem necessidade de mortes. O uso de anticoncepcionais é uma delas. O que o senhor acha desta medida?

Ranvaud - Não há registro de anticoncepcional que tenha funcionado com pombos. A razão é muito clara: para o medicamento ter validade, você tem que dar em quantidades altas e continuadas. O que acontece é que algumas espécies tomam muito a ponto de se matarem. E depois as outras tomam pouco e continuam se reproduzindo do mesmo jeito.

Folha - Outro ponto que tem sido repetido nas discussões locais é que a destruição da mata ciliar teria sido responsável pela vinda das pombas silvestres para a cidade e seu aumento...

Ranvaud - A mata ciliar tem sido adotada como dormitório, mas as pombas amargosas precisam de lugares abertos para se alimentar. Antes dessas mudanças gigantescas nas paisagens, quase não havia exemplares em SP e no PR. A espécie é do Nordeste, mas se espalhou pelo Brasil e quase toda a América do Sul. Se bem estruturada, essa questão das matas ciliares pode ter algo de verdadeiro. Mas não é verdade que elas aumentaram porque o número de predadores diminuiu, por exemplo. O que faz crescer a população é a oferta de alimento.

Folha - O senhor destacaria algum exemplo de local onde houve abate em massa de pombas?

Ranvaud - Temos o caso da Argentina. A situação aqui é um tira-teima do que aconteceu antes, naquele país. Eles puseram estricnina na água para matar todo e qualquer animal que estivesse bebendo. Morreram veados, gaviões, todo tipo de passarinho pequeno, houve uma ecatombe. Fizeram-se pacotes completos para esportistas de vários países caçarem pombas sem qualquer tipo de cota. Mas o número só diminuiu quando caiu a quantidade de alimento. Hoje, os argentinos estão replantando soja para manter o negócio das caças.

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