Procurador tenta limpar a sociedade
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de dezembro de 1997
Paulo Pegoraro 
Cascavel
Edson MazzettoDivulgaçãoCelso Antonio Três: Se há interesse para o Ministério Público divulgar um fato, não vejo problema em ligar para a imprensaO procurador da República Celso Antonio Três, gaúcho, 35 anos, casado, é o fato novo em Cascavel. Convidado para programas de entrevistas em emissoras de rádio e televisão, e com amplos espaços nos jornais, ele dispara sua metralhadora verbal para todos os lados onde enxerga aqueles que considera inimigos da lei. Pessoas que estão como alvo acusam o procurador de estar acometido de estrelismo e condenar sem julgamento. Ele responde que está apenas defendendo mãos limpas em todo os setores - nos moldes das ações da Justiça italiana contra a Máfia.
Filho de agricultores, formado em direito em Porto Alegre (RS), Celso Antonio Três já foi procurador do Estado e auditor do Tribunal de Contas no Rio Grande do Sul, até habilitar-se ao cargo de procurador da República, função que exerce em Cascavel desde março. Apenas em novembro passaram por suas mãos ou a elas retornaram 267 processos. O procurador tem funções semelhantes aos promotores estaduais de Justiça, mas relacionadas à casos da esfera federal, principalmente os chamados crimes do colarinho branco.
A maioria dos processos envolve pessoas e entidades reconhecidas publicamente, inclusive instituições oficiais. Três começou a ocupar espaços na mídia - e na boca do povo - ao divulgar e requisitar inquérito à Polícia Federal sobre a denúncia de aliciamento de trabalhadores para ações relacionadas a perdas do FGTS. Ele classifica o caso, que envolve um sindicato e alguns advogados, como um golpe.
Em seguida, pediu investigação para apurar outra denúncia que envolve advogados e outras pessoas, que estariam se apossando de Títulos da Dívida Agrária do governo pertencentes a agricultores. Em um dos recentes processos o procurador denuncia um casos de lavagem de dinheiro e consequente sonegação fiscal.
A acusação é contra uma casa de câmbio famosa e constituída por membros de uma família tradicional de Cascavel. O caso se tornou público e a investigação se transformou em um grande escândalo. Os acusados alegam que o procurador está causando prejuízos financeiros e danos morais irreparáveis.
A lista dos inconformados com a atuação de Três é acrescentada por alguns policiais civís de Cascavel, taxados pelo procurador como delinquentes. Segundo Três, há provas cabais de que eles teriam extorquido compristas na BR-277 quando voltavam do Paraguai. O procurador foi além: disse que policiais civís invariavelmente vão para rodovias para extorquir, porque não compete a eles qualquer ação sobre crimes fiscais, como contrabando ou descaminho.
Odiado por suas vítimas, o procurador recebe cartas e elogios de telespectadores e ouvintes dos programas que participa no rádio e na televisão, por não sonegar situações ou nomes - por mais poderosos que sejam os envolvidos. Com ele também se solidarizaram outros procuradores que atuam na área criminal no Paraná. Após reação de entidades que representam os policiais, os procuradores divulgaram uma Carta à População destacando o trabalho de Três na prevenção e repressão dos abusos e ilícitos cometidos por funcionários públicos.
A carta, com nove assinaturas, esclarece que as ações de Três não são esforço isolado de um procurador da República, mas de uma filosofia institucional. E acrescenta: Onde houver violação ao Direito e desrespeito à Justiça, ali certamente estará o Ministério Público. As vítimas do procurador de Cascavel, porém, dizem que ele extrapola suas funções acusando, execrando publicamente, condenando pessoas que ainda estão sendo investigadas e usando os processos para fazer propaganda.
Celso Antonio Três não recusa microfone ou página de jornal para esparramar a incisividade verbal. A atuação do procurador inspirou um repórter policial, que é também humorista: Policiais jogam truco na delegacia - jogo de cartas em que os participantes gritam números da aposta - e um deles grita três! Todos correm para se esconder, imaginando que o procurador Três está chegando, diz a piada.


