Procura-se cabelo liso, virgem e bem tratado
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segunda-feira, 05 de junho de 2006
Guilherme Borges<br>Reportagem Local 
Jayme vendeu, Elivete comprou, Luzia produziu, Rosemira ganhou. Uma hipotética cadeia produtiva tradicional, se não fosse inusitada a matéria-prima em questão: cabelo. Vender as madeixas não é tão novidade assim, já foi até tema de conto literário, mas está em alta com as novas técnicas de aplique capilar. ''As mulheres com mais de 30 anos não estão mais querendo cabelo curtinho. Aí elas fazem o alongamento com aplique'', esclarece a cabeleireira Elivete Cardoso Lima. Ela compra e vende, ou melhor, importa, cabelos variados.
O cabelo mais valorizado é o liso, virgem - sem tintura - e bem tratado. Isto porque ela pode transformá-lo no que a vaidade da cliente bem entender. ''A gente aplica uma cola de queratina, juntando o cabelo antigo ao novo. Pinta, corta e dá uma rejuvenescida na pessoa'', afirma. O cabelo transplantado, se bem cuidado, tem duração permanente. Conforme os fios naturais crescem, recoloca-se o aplique mais próximo das raízes. Lucro para as clientes, que desta vez só pagarão a mão-de-obra.
E não pense que a técnica é barata. Varia de acordo com o caso, mas a considerar o preço que se paga pelo cabelo - até R$ 300,00, se for comprido, liso e bem cuidado, o predileto das mulheres - pode-se prever que o tratamento rejuvenescedor sai caro. O que não fez tanta diferença para a manicure Rosemira Inês Nascimento, de 37 anos. Depois de ganhar o primeiro aplique, trocou por outro que ela considera melhor. ''Vem gente aqui no salão vender. Eu vi um cabelo bonito, gostei e comprei'', conta. Sem querer revelar o preço exato, diz que pagou entre 100 e 150 reais pelo cabelo. O marido e as filhas estranharam, mas aprovaram. ''A mais velha, de 15 anos, também quer colocar. Mas teremos que pagar esse primeiro'', conta.
De acordo com o Sindicato dos Cabeleireiros do Paraná, que tem sede em Londrina, existem mais de 1.500 salões no município. Não se sabe o número exato de profissionais, muito menos os que compram ou vendem cabelos. ''Muita gente abre salão, então não tem como saber a quantidade certa deste comércio. Sindicalizados são 150 cabeleireiros. Para estes, nós procuramos dar suporte com novas técnicas, inclusive de aplique'', afirma o presidente Mário Takinami. No próprio salão ele vende perucas naturais. Se não tiver pronta-entrega ao gosto do cliente, encomenda e produz sob medida. ''Tem bastante gente que faz isso aqui em Londrina'', garante.
Mas certamente ninguém há tanto tempo como Luzia Mityo Cravo Le. Com 14 anos ela começou a trabalhar como cabeleireira - hoje tem 57 - e há 40 fabrica perucas naturais. ''Para mim não tem cabelo ruim. Até porque tem vários gostos para peruca. O suficiente é o cabelo ser bem tratado'', explica, garantindo que não compra cabelo importado pois desconhece a procedência. O valor que paga também é variado: de 50 a 300 reais, sendo que o mais caro seria um cabelo médio - de 200 gramas - sem tintura, tanto faz se liso ou encaracolado, mas que a pessoa tenha feito corte permanente das pontas. ''Não adianta deixar o cabelo crescer durante quatro anos sem cuidar das pontas. Ele fica pesado, descuidado. Aí desvaloriza''.
Foi o que aconteceu com Jayme Ayres, 32 anos. No final de 2005, ele resolveu cortar as madeixas que cresciam há dois anos e pensou: ''Por que não ganhar com isso?''. A princípio lhe ofereceram R$ 50,00. Persistente e consciente do valor do próprio cabelo, tentou uma segunda vez: R$ 70,00. Aí não teve opção, cortou, vendeu e agora já pensa em deixar crescer novamente. ''É um investimento a longo prazo'', brinca. Ele lembra que no dia em que foi vender o cabelo, descobriu que a cabeleireira - Luzia, por coincidência - fabricava perucas para pessoas em tratamento quimioterápico. ''Foi até mais bacana saber isso'', afirma.


