Londrina
Londrina não faz parte das cidades incluídas na última avaliação do presidente Fernando Henrique Cardoso sobre o Plano Real. Pelo menos é o que mostram os dentistas e protéticos locais. Ao contrário da declaração de FHC, de que o mais novo efeito do Real seria a procura por tratamento dentário pela população mais pobre, os consultórios de odontologia e laboratórios protéticos vivem a pior crise das últimas décadas. A queda na demanda de pacientes, segundo dentistas e protéticos londrinenses, chega a 50% e teria se iniciado exatamente com a chegada do Plano Real, em 1994.
‘‘Diziam que o herói do Real era o frango, depois o iogurte, mas agora acho que é a dentadura. Vão ver os pobres botando dente’’, disse o presidente em entrevista coletiva na segunda-feira. Diante dos risos de assessores, FHC completou: ‘‘Não é para rir, isso é um avanço imenso, a pessoa poder cuidar de si. Isso é Plano Real, isso me comove’’.
A queda no movimento em clínicas odontológicas locais se acentuou, segundo profissionais da área, nos últimos seis meses. Protético há 20 anos, José Luiz Algarte Lopes afirma nunca ter passado por uma crise ‘‘tão acentuada’’. Dono de uma das clínicas odontológicas mais populares da Cidade, Lopes diz que os pacientes só procuram o dentista quando estão com dor ou então para trocar a dentadura, muito desgastada pelo tempo de uso. Pacientes novos, segundo ele, continuam aparecendo, um ou dois por dia. Esse número, diz Lopes, equivale à metade de outras épocas. ‘‘É assim desde o começo do Plano. O pessoal está sem dinheiro’’, afirma.
A situação atinge também classes sociais mais altas. O presidente da Associação dos Protéticos de Londrina, Mário Ogama, afirma que o número de pacientes de faixas econômicas mais altas ‘‘caiu assustadoramente’’. Esses pacientes, segundo Ogama, passaram a procurar preços mais razoáveis, o que provocou pequeno aumento na saída de materiais inferiores.
Ele afirma que, com a diminuição do poder aquisitivo da classe média, os clientes entraram em planos de saúde. Como os preços pagos pelos planos são menores, os dentistas passaram a requisitar próteses de preço e qualidade intermediários. Ogama - que desenvolve trabalhos mais sofisticados em cerâmica e porcelana - afirma que ultimamente não faz mais de três próteses por mês.
O preço de uma prótese removível total (dentadura inferior ou superior) de material de terceira qualidade, calcula Ogama, varia entre R$ 75,00 e R$ 100,00, o que corresponde a 62% e 83% do salário mínimo. ‘‘Isso é muito para quem vive com o mínimo. Praticamente não sobra para comer no mês em que o paciente pagar a prótese’’, compara Ogama.
Na clínica de Lopes, segundo ele próprio, uma prótese total não sai por menos de R$ 100,00. ‘‘Para que o cliente tenha condições de colocar, parcelamos em duas e até três vezes’’, diz.
Uma das dentistas mais antigas de Londrina, Júlia Fabris, 71 anos, afirma que o movimento em sua clínica continua ‘‘bom’’, apesar de ter caído. Atendendo em Londrina desde o início de 1952, quando ela se formou, a dentista afirma que a crise do momento é geral. ‘‘Está havendo uma crise e todos os setores estão sofrendo. Lojas que fecharam, empregados que foram demitidos e a procura pelo dentista também diminuiu.’’
O gerente administrativo da Associação Odontológica do Norte do Paraná, Gumercindo Teixeira da Silva, acredita que FHC foi infeliz em seu comentário, já que a colocação de dentadura significa que a pessoa não teve saúde dental e condições suficientes para manter os dentes. Uma prótese de alta qualidade, segundo ele, custa o equivalente a um carro popular zero quilômetro. ‘‘O pessoal ainda prefere ficar por aí de carro novo a cuidar dos dentes.’’

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