Procura por cirurgia de troca
de sexo é maior que o esperado
Em apenas uma semana,
21 pessoas se
candidataram a fazer
a cirurgia
Anna Camanducaia

Albari Rosa
O médico Márcio Dantas de Menezes se surpreendeu com a grande procura de transexuais pela cirurgia de mudança de sexo. A primeira operação, a ser feita pelo Centro de Estudos e Tratamento da Sexualidade, de Londrina, deve acontecer em 15 diasNa primeira semana de avaliação para a cirurgia de redesignação sexual (troca de sexo), a Clínica de Sexologia da Universidade Tuiuti do Paraná, em Curitiba, recebeu 12 pacientes. O Centro de Estudos e Tratamento da Sexualidade (Cets) de Londrina foi procurado por seis pessoas. Em Maringá, três transexuais já manifestaram a intenção de fazer a cirurgia. ‘‘Esses números furam qualquer estatística. A procura está sendo muito grande’’, diz o diretor do Cets, Márcio Dantas de Menezes.
Hoje, a informação que se tem é de um caso de transexualidade a cada 40 mil homens e 80 mil mulheres. Os transexuais têm identidade e genital de um sexo, e aparência e sentimento de outro.
Até outubro do ano passado, as cirurgias de masculinização e feminilização eram proibidas no Brasil. Em 1997, o Conselho Federal de Medicina liberou a operação em caráter experimental nos centros de estudos. Este procedimento já vinha sendo feito na Unicamp. Menezes diz que a primeira cirurgia no Paraná deve ocorrer dentro de 15 dias.
Os transexuais que querem fazer a operação passam por um comitê, que avalia o sexo emocional, o sexo genético e o fenótipo (características externas) do paciente. A espera pela cirurgia pode ser de seis meses a dois anos. Enquanto isso, os pacientes recebem acompanhamento médico.
A duração da cirurgia de redesignação sexual varia entre duas e três horas. O tempo de recuperação é de um mês, mas é preciso esperar três meses para começar a ter relações sexuais. ‘‘Dados americanos garantem 100% de orgasmo em cirurgias de feminilização. Nas de masculinização, essa percentagem cai para 26%’’, diz Menezes.

Albari Rosa
A sexóloga Regina Teixeira diz que os transexuais vivem em conflito permanente. A cirurgia de troca de sexo, afirma, pretende evitar que muitos se mutilem ou se suicidemPara ele, a liberação da cirurgia é um ato de democracia sexual, ‘‘uma carta de alforria’’. ‘‘Os transexuais não são homens nem mulheres, e por isso não são integrados à sociedade.’’
Segundo a sexóloga Regina Teixeira, os transexuais não conseguem emprego, não têm relacionamento social nem afetivo. ‘‘Eles vivem um conflito. Sempre têm um pouco de revolta, insegurança, inferioridade e angústia’’, diz. ‘‘Nossa principal preocupação é com o lado emocional. Com a cirurgia, queremos evitar que muitos se mutilem ou se suicidem.’’
Marcia, nome fictício de uma das pacientes que consultou a clínica nesta semana, diz que espera começar a viver depois da cirurgia. O nome na carteira de identidade e o genital são masculinos, mas a aparência e o emocional são femininos. Marcia diz que não consegue aceitar sua situação e que, aos 19 anos, chegou a rasgar todos os seus documentos.
Só a mãe e os irmãos sabem do problema. Nem o namorado, que está com ela há um ano e dois meses, sabe que ela é transexual. ‘‘Ele nunca percebeu porque me respeita muito. Tenho 28 anos e ainda sou virgem.’’
Marcia só trabalha porque a mãe tem uma indústria. ‘‘Se tivesse que procurar emprego em outro lugar, não conseguiria’’, diz. ‘‘Também não posso votar, abrir conta em banco e nem viajar.’’ Ela conta que foi convidada para ir à Europa com uma amiga, mas teve de arranjar uma desculpa para que ela não descobrisse nada.
Com a chance da cirurgia, Marcia quer voltar para a escola e, depois, formar-se em Medicina. Ela parou os estudos quando tinha 13 anos. Outro sonho é casar. ‘‘Até hoje, não pude fazer nada disso, é como se estivesse numa prisão.’’

mockup