Procedimento cardíaco inédito completa 20 anos
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sexta-feira, 06 de março de 2009
Chiara Papali<br> Reportagem Local 
Completa 20 anos o primeiro registro de paciente no Brasil que sobrevive a uma ruptura total de aorta por traumatismo fechado do tórax. Diagnosticado em Londrina pelo cirurgião cardíaco Francisco Gregori Junior, que fez a cirurgia de emergência, o caso serve ainda hoje como alerta para plantonistas que atendem nos prontos-socorros.
Jane Medeiros é a paciente que sobreviveu a uma ocorrência que mata 85% dos casos nas primeiras duas horas, e, no restante deles, vitima metade nas primeiras 48 horas, ou ainda causa paraplegia como sequela. Outra estatística mostra que uma em cada seis mortes por acidente automobilístico ocorre por causa do rompimento da aorta, a principal artéria que leva o sangue oxigenado para todo o corpo.
A professora, na época com 33 anos, se envolveu em um acidente de trânsito e bateu o Fusca que dirigia de frente com outro carro. Não usava o cinto de segurança, cujo uso não era obrigatório, e a batida fez com que sofresse uma forte pancada no peito. ''Mas, mesmo hoje, com o uso do cinto e air bag, a desaceleração brusca pode causar o rompimento'', alerta Gregori.
Ela conta que tinha apenas alguns arranhões no joelho porque havia caído ao tentar sair do carro. ''Se eu não tivesse caído, talvez tivesse até recusado socorro porque estava bem, não tinha 'nada''.
No hospital onde foi atendida, o raio X não mostrou fraturas. O que levantou a suspeita de algo mais sério, recorda Gregori, foi a queda na pressão arterial, o início de formigamento nas pernas e um discreto alargamento da aorta que aparecia no raio X. ''O indicativo maior foi a queda na pressão arterial, que pedia uma investigação para saber para onde estava indo o sangue'', afirma, lembrando que, na época, não havia o exame de tomografia, hoje imperativo para detectar esse tipo de caso.
A ruptura da aorta, ressalta o cirurgião, é comum em casos de traumas, tiros, facadas. Mas, o diagnóstico não é fácil quando o tórax está fechado, a mesma situação de Jane. ''São casos fáceis de serem tratados desde que haja o diagnóstico, mas, quando o paciente não tem nada aparente no tórax, o plantonista precisa ficar atento para investigar outros sinais. Hoje, nos prontos-socorros, a grande preocupação é com o traumatismo craniano, mas é preciso investigar também o tórax''.
Com Jane, um cateterismo mostrou a ruptura total da aorta. Ela foi encaminhada para uma cirurgia de emergência no Hospital Evangélico e um tubo foi implantado no local do rompimento para restabelecer o fluxo do sangue. Para ela, ser salva significou ''um novo nascimento''. ''O que mudou? Eu vivia muito em função do futuro. Mas aprendi, como ensina a Bíblia, que é preciso viver um dia de cada vez, sempre fazendo o melhor possível e o bem aos outros'', afirma.
O feito foi publicado na Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. ''O que chama a atenção é que ainda hoje são poucas ocorrências publicadas, e nos últimos 20 anos, apenas uma dezena de pacientes foi operada nessa situação, provalmente não por falta de casos, mas de diagnóstico''.


