O especialista em toxicologia e professor titular aposentado do curso de Farmacologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Botucatu, Igor Vassilieff, que atendeu Maria Geir da Rocha, disse à Folha ontem, por telefone, que ficou impressionado com o estado da paciente quando ela o procurou no início de 1999. ''Em 35 anos de profissão, só tinha visto dois casos semelhantes'', afirmou. O médico lamentou a morte da paciente e disse que o grau de contaminação que ela apresentava era muito grave. ''Infelizmente, poderia até ter morrido antes'', disse.
Vassilieff critica o procedimento do Hospital Evangélico de Londrina e afirma discordar do laudo pericial apresentado por um médico legista. Segundo o documento, a contaminação teria ocorrido no pós-operatório. ''No relato que a paciente me fez, ela queixou-se de dores no braço esquerdo assim que voltou da anestesia. Se a equipe médica tivesse tirado um raio X, o que é de praxe, teria verificado no ato a contaminação'', salientou. Dessa forma, segundo Vassilieff, teria dado tempo de Maria receber de maneira eficiente os medicamentos, chamados de queladores, que podem neutralizar o processo de contaminação.
O advogado do hospital, Ronaldo Neves, afirma que Maria já apresentava complicações renais antes da cirurgia e que, apesar de considerar a contaminação um fato ''inegável'', diz que a única sequela de responsabilidade do hospital seria a perda de parte dos dedos da paciente. ''Ela já estava aposentada e não dependia exclusivamente desses dedos. Não era uma pianista'', alegou Neves à reportagem, defendendo que o valor da ação indenizatória seja reduzido. Já o toxicologista Vassilieff afirma que, no processo, há exames comprovando o funcionamento normal dos rins da vítima antes da cirurgia.
O chefe da equipe médica responsável pela cirurgia, o cardiologista Francisco Gregori, citado no processo, afirmou que é injusto atribuir-lhe responsabilidade no caso, já que estava em férias na Argentina no dia da cirurgia. A operação teria sido efetuada pelo cardiologista Celso Cordeiro, de sua equipe. ''Acredito que o problema ocorreu após a operação porque a cirurgia foi bem sucedida, conforme atestaram exames recentes feitos pela vítima'', diz Gregori. Cordeiro afirma que está com a consciência tranquila porque tudo correu bem durante a cirurgia.
A advogada da paciente, Fabiane Schnaid, defende a tese de que a contaminação ocorreu durante a cirurgia e lamenta a morosidade da Justiça em concluir o caso. ''Gostaria que a Justiça tivesse sido feita enquanto Maria estava viva'', declarou.

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