Milton DóriaMea culpaValdecir, condenado por roubo: arrependimento pela ‘besteira’Foi algum dia infeliz de 1991. Foi quando Valdecir cometeu ‘‘aquela besteira’’, como diz. Ele resolveu fazer um roubo, junto com outra pessoa. Desde os 10 anos, Valdecir sempre havia trabalhado. Fazia serviço de pedreiro e carpinteiro. ‘‘Meu pai não deixava ninguém ficar parado, não.’’
Mas Valdecir ‘‘pensou só duas vezes’’ naquele dia. Esqueceu o trabalho que o pai havia ensinado e roubou. Foi preso logo depois. Conheceu a cela por duas horas, pagou fiança e saiu. Mas, em outubro de 1995, foi condenado a cumprir pena de dois anos em regime aberto. Diz estar profundamente arrependido. ‘‘Se eu tivesse pensado três vezes, não teria roubado. Mas a gente vai atrás dos outros, acha que dá certo.’’ Não deu.
Valdecir Jesus Lima, hoje com 31 anos, é uma das 180 pessoas atendidas pelo programa Pró-Egresso, uma atividade de extensão da Universidade Estadual de Londrina (UEL) que trabalha com pessoas condenadas pela Justiça e suas famílias. Surgido em Londrina, no ano de 1976, com o nome de projeto Themis, o Pró-Egresso dá assistência psicológica, jurídica e social a quem está cumprindo penas em regime aberto, liberdade condicional, sursis ou serviços para a comunidade.
É um programa único no País. Nasceu no Departamento de Serviço Social da UEL. Até hoje está ligado à Universidade. Mas multiplicou-se pelo Paraná. Além da sede em Londrina, existem mais 18 pólos do projeto no Estado. Estagiários das áreas de Direito, Serviço Social, Psicologia e Biblioteconomia garantem o atendimento aos ex-presos e condenados. As atividades são financiadas por um convênio entre a UEL, outras universidades e a Secretaria Estadual de Justiça.
O índice de retorno à prisão, entre os egressos atendidos, é de 10%. Um número satisfatório, quando se faz a comparação com a média de reincidentes no Brasil.
Quando Valdecir foi condenado por roubo, o juiz determinou que ele visitasse a sede do Pró-Egresso todas as semanas. Hoje, Valdecir mora em Cambé. Casado, cria dois filhos, de 8 e 5 anos. Vive das habilidades que aprendeu em casa: é carpinteiro e pedreiro. No Pró-Egresso, fez muitas amizades. Primeiro, com o pessoal do atendimento psicológico. Depois, com os estagiários de serviço social. ‘‘Quando preciso de alguma coisa, venho aqui.’’ E conheceu também os assessores jurídicos.
A situação não é um mar de rosas para Valdecir. ‘‘Tá difícil de conseguir dinheiro.’’ Mas de uma coisa ele diz ter certeza: ‘‘Não quero fazer mais besteira.’’ Aquele infeliz dia de 1991 parece remoto. A equipe do Pró-Egresso, segundo ele, sedimentou ainda mais essa convicção pessoal. Na base da conversa e do apoio.
Mas Valdecir também conheceu outras pessoas no Pró-Egresso. Gente que não ficou apenas duas horas atrás das grades. Gente que foi condenada, presa e agora tenta se reconciliar com o mundo. Em 1997, a Campanha da Fraternidade, da Igreja Católica, se volta para a questão dos encarcerados. O Pró-Egresso é citado no texto oficial da campanha. Neste ano, o programa completa a sua maioridade - 21 anos - e continua lutando para amenizar o drama dos ex-encarcerados, dos ex-condenados, dos que um dia foram enquadrados pelo Código Penal.
A coordenadora do Pró-Egresso em Londrina é a advogada e professora Vilma Aparecida do Amaral. Ela comenta que o maior obstáculo do programa é o preconceito. Mesmos os profissionais que trabalham com os ex-presos são alvo de resistências:
- Muitas pessoas se surpreendem e até mostram desconfiança quando dizemos onde trabalhamos.
No dia-a-dia do Pró-Egresso, Vilma sentiu a força da intolerância em relação aos ex-presos. Quem vai para trás das grades tem a sua pena. Mas, ao ganhar a liberdade de andar pelas ruas, parece condenado ad eternum - pelo tribunal do preconceito.
Primeira dificuldade: empresas raramente aceitam contratar quem já esteve na cadeia. ‘‘A sociedade não percebe que isso é um círculo vicioso. Se o preso encontrar todas as portas fechadas, acabará se voltando para a criminalidade outra vez’’, sentencia a coordenadora do Pró-Egresso.
Resultado: os egressos se dedicam à economia informal para sobrevivência. Trabalham por conta própria sem assinar carteira, sem patrão. O curioso é que, entre as pessoas que são presas na região de Londrina, 81% tinham emprego antes de serem condenadas. ‘‘Muitos egressos qualificados não conseguem emprego devido ao preconceito’’, conta Vilma.
Mas não se fecham apenas as portas das empresas. Muitas vezes, há também outra barreira a ser transposta. É a família. São comuns os casos em que os próprios familiares rejeitam e isolam o ex-detento. Por isso, o programa faz também o atendimento psicológico aos parentes do egresso.
Mas há casos mais complicados. Quando uma pessoa é presa, a família pode se desintegrar completamente. Acontecem frequentemente separações e mudanças de residência. Alguns ex-detentos, separados dos antigos parentes, são obrigados a dar o difícil passo de formar uma nova família. ‘‘O programa também acompanha esse tipo de esforço’’, diz Vilma.
A coordenadora do Pró-Egresso não gosta de falar em reinserção do preso na sociedade. Prefere falar em conciliação. ‘‘Tentamos recriar os laços do preso com a sociedade. Não tem sentido falar em reinserção, porque ele nunca esteve fora da sociedade. Apenas foi isolado, por diversos motivos.’’
Outra peculiaridade do Pró-Egresso: os crimes são vistos pelo ângulo subjetivo do condenado. ‘‘A sociedade só pensa em punir quem comete um crime, mas se esquece de ver tudo que motivou aquele ato’’, diz Vilma. Às vezes, surpresa: a causa do crime pode ser não a necessidade financeira, mas alguma forma de opressão familiar, um gosto pelo proibido, um mergulho na aventura, a decorrência do alcoolismo, o resultado de chantagens.
De acordo com Vilma, não existe crime isolado. ‘‘Por exemplo, quem comete um furto, na maioria absoluta das vezes tem quem receba o produto furtado. Se formos analisar, veremos que existe uma cadeia social do crime.’’
Para quem garante que está isolado da cadeia do crime, Vilma recomenda uma auto-análise:
- Todos praticamos crimes. Quem nunca cometeu um ato ilícito? Quem não deixou de pagar um empréstimo? Quem não roubou um pequeno objeto? Eu recomendo que as pessoas se coloquem no lugar de um preso, e não se recusem a encarar essa realidade.
Valdecir Jesus Lima, que viveu apenas duas horas atrás das grades, sabe do que Vilma está falando.

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