'Privatização é a solução para rodovias'
Lucinéia Parra
De Maringá
Folha Hoje, quais os serviços que a Viapar presta aos usuários?
MarchettiComeçamos a operar em junho de 98. Logo em seguida veio a decisão governamental de redução drástica das tarifas em 50%. Isso causou um desequilíbrio econômico financeiro total no contrato. Existia um contrato a ser cumprido, fruto de uma licitação internacional, em que existia um programa de receita e de investimentos. A partir de uma decisão unilateral, os investimentos tiveram que ser totalmente revistos. Hoje estamos tutelados por uma liminar que nos desobriga, enquanto o mérito da ação está em discussão, a fazer investimentos adicionais, que são as obras de ampliação e duplicação das rodovias, construção de terceira faixa, construção de contorno de cidades, entre outras. Mas permanecem todos os serviços de manutenção e conservação das rodovias e todos os serviços de atendimento aos usuários. Hoje estamos mantendo serviço de atendimento hospitalar, atendimento de apoio mecânico, de incidentes, além das operações de tapa-buraco e de conservação das rodovias. Hoje não há buraco na pista.
FolhaQual o volume de investimento feito pela empresa até agora?
MarchettiFizemos um grande investimento no início, que foi, a valores de hoje, cerca de R$ 60 milhões aplicados para recuperar todas as estradas do nosso trecho. A ordem de serviço para iniciar o processo foi em 26 de novembro de 97. Tínhamos o prazo de seis meses para tornar o tráfego com mais fluidez nas estradas. A partir de então estávamos habilitados a cobrar a tarifa. Além da sinalização horizontal e vertical que praticamente não existia, fizemos a recuperação do piso, recuperação das faixas de domínio, construção de canaletas, construção e recuperacão de bueiros, e construção de toda infra-estrutura para atendimento ao usuário. Também houve a instalação de um sistema de comunicação que permite uma comunicação em tempo real e viva voz, garantindo assim o atendimento mais rápido possível ao usuário. Se o contrato tivesse prevalecido, já teríamos feito 142 quilômetros de restauração, e 22 quilômetros de duplicação da estrada que liga Maringá a Campo Mourão. Sem contar que estaríamos movendo a economia do Estado, porque hoje estamos operando com apenas um terço do pessoal. Tivemos, no início, 1.500 funcionários. Hoje temos menos de 500.
FolhaComo estão as negociações com o governo?
MarchettiAs negociações estavam caminhando muito bem. As partes governo e empresas estavam entrando num acordo que seria levado à Justiça, já que existe uma ação. Com a manifestação nacional dos caminhoneiros, houve um retrocesso. Aquilo criou uma certa reação, e foi pior para nós do Estado do Paraná, porque enquanto todo o País estava protestando para reduzir tarifas, nós estávamos lutando para aumentar a tarifa. Só que nós tivemos uma redução da tarifa em 50%. Os outros Estados estão pensando em reduzir, mas reduzir de uma situação normal. Nós não. Nós já tivemos uma redução no passado. Acreditamos que a situação não pode continuar do jeito que está. O usuário é inteligente. Ele quer ver mais obras. Hoje, o usuário já cobra mais investimentos e muitas vezes ele se esquece do que já foi feito.
FolhaExiste algum interesse por parte das empresas em romper o contrato, em função destes entraves com o governo do Estado?
MarchettiNós enquanto empresários, não somos aventureiros nesse ramo. A gente veio porque acredita no processo. Acredito que a privatização é o caminho para recuperar as estradas. Mas ao mesmo tempo não somos uma empresa de atendimento social. Nós somos uma empresa do mundo moderno que tem suas obrigações e direitos e a previsão de ganho. Evidentemente que, do jeito que está não pode ficar. Temos um contrato que tem um programa de receita e que ela foi reduzida em 50%. Estamos mantendo as obrigações, mas isso não será possível se não houver uma revisão do contrato. Acredito que uma solução virá, ou através de uma decisão do poder público, ou de uma decisão da Justiça.
FolhaO valor da tarifa foi reduzido mas as obras, como o senhor mesmo disse, também foram canceladas temporariamente. Então há um equilíbrio entre receita e investimentos?
MarchettiEssa pergunta é boa para esclarecer porque o grande público tem essa visão. Mas nós temos que lembrar de todo o investimento que foi feito antes de iniciar a cobrança da tarifa. Só para se ter uma idéia, em todo anel de integração foram investidos R$ 270 milhões. Nunca na história do Brasil, em pouco tempo se aplicou tanto dinheiro nas estradas. Todo esse investimento que foi feito, parte do dinheiro saiu dos bancos e parte dos acionistas. Esses compromissos foram feitos e a tarifa foi reduzida o que não significa que temos reduzido as obrigações e os investimentos adicionais resolverá o problema, porque nós todos estamos pendurados em grandes compromissos financeiros. O balanço da Viapar em 98 está no vermelho porque os custos financeiros são altíssimos. Ainda temos que fazer os serviços de manutenção e arcar os compromissos originais.
FolhaEntão a expectativa das concessionárias era cumprir os compromissos de financiamentos a curto prazo?
MarchettiExatamente. Nós da Viapar fomos surpreendidos. Quando o governo reduziu as tarifas e rompeu o contrato inicial, faltava apenas uma semana para a gente assinar o financiamento com o BNDES depois de um ano de preparação de toda documentação. A partir da decisão do governo, recebi uma carta do BNDES suspendendo o financiamento. Então ficamos apenas com o financiamento de bancos particulares que cobram juros altíssimos.
FolhaQual o déficit hoje da Viapar?
MarchettiNós estamos hoje com quase R$ 1 milhão por mês de prejuízo. Nós fechamos o balanço de 98 com R$ 6 milhões de prejuízo e estamos com mais de R$ 7 milhões de prejuízo acumulado este ano. A receita de hoje não cobre os custos da dívida contraída no início das obras mais os serviços de manutenção mensal das rodovias.
FolhaE como a empresa espera recuperar este valor?
MarchettiNós esperamos que a Justiça acelere o processo. A Justiça tem que entrar no mérito. Ela tem todas as informações. Ela tem que definir uma posição.
FolhaO senhor mesmo disse que a greve dos caminhoneiros atrapalhou a negociação para o reajuste da tarifa. Isso não fica claro que se houver o reajuste haverá uma rejeição forte por parte dos caminhoneiros e de toda sociedade?
MarchettiO movimento do caminhoneiro não tem como principal problema o pedágio. O que ocorre com os caminhoneiros é que eles, assim como todos nós brasileiros estamos passando por um momento econômico difícil. Está havendo os tarifaços. Aumentou o combustível, telefone, conta de luz, e muitos outras tarifas. Eles também têm o problema das pontuações que correm o risco de perder a carteira de habilitação e o mais grave, é que eles estão em uma atividade que está sofrendo um aviltamento em relação ao valor do frete. A atividade está com problema sério de demanda. Eles têm problema sério de sobrevida de mercado, mas o problema não é apenas o pedágio. Pelo contrário, está comprovado que há ganhos efetivos operacionais para o caminhoneiro quando ele transita em estradas conservadas e assistidas. Então a gente não teme esta reação. Estamos na contramão de outros Estados, e o aumento será a partir de um preço muito reduzido.
FolhaE qual o reajuste esperado pelas concessionárias?
MarchettiQueremos a volta das condições do contrato que foi assinado. O contrato não pode ser rasgado. Existe problema até de credibilidade com os órgãos internacionais. Agora cabe também às autoridades rever os investimentos previstos originalmente no contrato e decidir se vão manter as mesmas obras. Pelo contrato o reajuste é anual com vigência em junho.
FolhaCom relação aos desvios utilizados pelos motoristas para escapar do pedágio. Como a Viapar enfrenta este problema.
MarchettiHouve uma tentativa no início de achar que o desvio é um grande negócio, mas paulatinamente os desvios estão sendo abandonados. O desvio é de alto risco. Dá problema de segurança e o mais grave, ao utilizar os desvios os motoristas causam problemas sérios aos munícipes. Com o tempo, os munícipes se reúnem e exigem o fim do desvio. O próprio prefeito tem que consertar as estradas. Tivemos caso de estupro na nossa região. Tivemos casos de duas comunidades que se uniram para reclamar contra os desvios.
FolhaPor que a Viapar está colocando nota promissória no mercado?
MarchettiPor causa dos nossos compromissos bancários. Não recebemos dinheiro a longo prazo do BNDES, então os empréstimos com os outros bancos têm que ser renovados. Estas notas são para renovar os empréstimos. Nós temos R$ 35 milhões emprestados junto aos bancos. Pagamos todo mês quase R$ 1 milhão de juros, de rolagem da dívida. Só que agora o aval não é o processo, porque os bancos não acreditam mais no contrato com o órgão concedente a partir do momento que foram suspensas as obras em função da redução das tarifas.
Na região de Maringá, a concessionária Viapar responsável pelo lote 2 do Anel de Integração , conforme o seu diretor presidente, Nilton Marchetti, acumula déficit mensal de R$ 2 milhões. Em entrevista à Folha, pela primeira vez Marchetti fala sobre o assunto publicamente. Formado em engenharia civil pela Universidade Federal de Minas Gerais, Marchetti tem 52 anos. Sua experiência profissional começou na construção pesada no Brasil e em países do Oriente Médio e América do Sul, nas áreas da indústria, de energia e transporte. Marchetti pertence ao quadro da Construtora Queiroz Galvão, com sede no Rio de Janeiro, uma das empresas integrantes do consórcio que criou a Viapar. Ele atuou como diretor da área internacional da empresa por vários anos.





