PRISÃO SEM GRADES 'Estou presa e meu marido livre'
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sábado, 16 de abril de 2011
Carolina Avansini <br>Reportagem Local 
''Não fiz nada errado e fiquei presa. Meu marido, enquanto isso, continuou livre, gastando dinheiro e tomando cerveja.'' O questionamento de Marli (nome fictício), uma vítima da violência doméstica que foi recolhida em um abrigo com os dois filhos para cessar as constantes ameaças de morte, representa o sentimento da maioria das mulheres que enfrentam o problema.
A constatação é de Viviane dos Reis Martins, gerente da casa abrigo Canto de Dália, da Secretaria Municipal da Mulher, que atende anualmente uma média de 50 vítimas de violência doméstica retiradas dos seus lares em função das graves ameaças sofridas. ''O abrigamento é o último recurso. São atendidas mulheres que correm risco de morte e não possuem qualquer outra rede de apoio para atendê-las'', explicou.
A triagem dos casos é feita por uma equipe técnica do Centro de Atendimento à Mulher (CAM), que oferece apoio e atendimento psicológico e jurídico, entre outros serviços, às mulheres vitimadas. No abrigo, a maioria das atendidas chega com depressão, baixa auto-estima e situação de negligência com relação aos filhos. ''Fazemos um trabalho de recuperação para que elas tenham condições de superar o problema por meios próprios.''
O tempo de permanência médio é de um mês. Depois disso, algumas saem fortalecidas e, com apoio da profissionais, conseguem superar o ciclo de violência. Outras, por outro lado, não dão conta de romper os laços afetivos e de dependência com o agressor. Há também os casos de reconciliação em que as mulheres, fortalecidas, passam a não aceitar as agressões. ''Depende da determinação de cada uma. A única certeza é que elas nuncam voltam para casa do mesmo jeito que chegaram ao abrigo'', observou.
Marli, que ficou na instituição por uma semana e foi resgatada pela mãe, reconhece que as atitudes do marido são violentas mas ainda não sabe como agir para superar os ataques. ''Ele fazia as coisas erradas e punha a culpa em mim, que não reagia. Sei que fui burra, mas ainda não decidi que atitude tomar'', contou ela, que nos dias de abrigamento sentiu-se afastada da vida. ''Deixei meu trabalho, minhas coisas, enquanto ele ficou solto. Dá uma sensação de injustiça.''
Esse é também o sentimento de Paula (nome fictício), abrigada no Canto de Dália após viver uma história de constantes agressões. ''Não cometi nenhum crime e estou presa. É muito injusto'', desabafou ela, que demorou a decidir pelo abrigamento e, apesar do sofrimento por estar londe de casa, não se arrepende da decisão. ''Foi o melhor para mim'', disse.
Retrato da ambiguidade de sentimentos que assola as mulheres em situação de violência, Paula tem planos de retomar a liberdade, os estudos e as amizades deixadas para trás. Questionada sobre a possibilidade de levar o processo adiante e garantir a punição do agressor, entretanto, ela afirma não ter certeza sobre a melhor solução. ''O melhor seria ele também receber tratamento'', disse.


