Prisão de líderes mobiliza os sem-terra
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quinta-feira, 18 de setembro de 1997
Marcos Zanatta Maringá 
Marcos NegriniExpectativaVindos de outros acampamentos no Paraná, cerca de 300 sem-terra se concentram na sede do MST no Noroeste Cerca de 300 sem-terra estão mobilizados desde ontem de manhã na sede do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Querência do Norte (113 quilômetros de Paranavaí), em protesto pela prisão de dois líderes do movimento na região, Delfino Becker e Celso Anguinhoni. Os dois tiveram a prisão preventida decretada anteontem pela juíza de Loanda, Elizabeth Khater, a pedido do delegado Mário Sérgio Bradock, de Querência do Norte.
Os sem-terra vão permanecer em vigília na sede do MST até que os líderes sejam libertados. A polícia também está mobilizada. Pela manhã, o acesso a cidade chegou a ser bloqueado pela PM.
Segundo Bradock o pedido de prisão está baseado no inquérito que apura a responsabilidade pela invasão de diversas fazendas no município. Ele não soube precisar o número de propriedades que fazem parte do inquérito, mas disse que os líderes foram enquadrados por formação de quadrilha, invasão de propriedade e cárcere privado, entre outros crimes menores. Outro líder do MST em Querência do Norte, Paulo Marqui, considerou as prisões ilegais e injustas. A prisão dos companheiros é uma perseguição política de parte do governo do Estado, que já mandou prender 29 líderes do MST no Paraná, afirmou Marqui.
O clima de tensão começou logo após a prisão dos dois líderes, no final da tarde de anteontem. Segundo Marqui, o primeiro a ser preso foi Anguinhoni, em Santa Cruz do Monte Castelo, quando voltada de Loanda, onde levou a filha ao médico.
No final da tarde, os policiais prenderam Becker no Fórum de Loanda. A notícia da prisão chegou nos acampamentos e os companheiros vieram para a cidade, onde permanecerão até que os dois sejam liberados, disse. Ele calcula que pelo menos 600 sem-terra de todas as áreas ocupadas estão na sede da entidade.
Reforço policial A mobilização dos sem-terra levou a polícia a reforçar a segurança em torno da delegacia da cidade, que tem apenas quatro policiais civis e cerca de 10 militares. Segundo o delegado Bradock, ontem pelo menos 80 homens faziam a segurança do prédio e da entrada da cidade. Conseguimos reforço de Maringá, Paranavaí, Loanda e Cruzeiro do Oeste, informou. Além de policiais da tropa de choque, um grupo do Tático Movel de Maringá está em Querência do Norte.
Bradock afirmou que sabe da intenção dos sem-terra de cercar a delegacia. Eles querem colocar fogo no prédio, de preferência comigo dentro, chegou a afirmar. Bradock disse ainda que os sem-terra estavam preparando coquetel molotov na sede do MST.
O líder do movimento, Paulo Marqui, garantiu que não existe nenhuma intenção dos sem-terra de confrontar com a polícia. Ele acredita ainda que a polícia e os fazendeiros estão mobilizados para fazer a desocupação das fazendas Dois Córregos, onde estão 150 famílias, e da Bandeirantes, com 80 famílias. A ordem nas propriedades é de resistir, avisou.
O capitão da PM Gilberto Cândido dos Santos disse ontem que não tinha recebido nenhuma ordem para realizar a reintegração na Dois Córregos.
Sem mandado A Rede Autônoma de Advogados Populares do Paraná, divulgou nota ontem no final da tarde, informando que os dois líderes do MST foram presos sem emissão do mandado de prisão. O documento só foi apresentado depois de presos em Paranavaí. A rede afirma ainda que, por orientação do delegado Bradock e do delegado chefe da Polícia Civil de Paranavaí, Nabor Sotomaior, os advogados do MST foram impedidos de manter qualquer tipo de contato com os sem-terra presos.


