A pauta era clara: minha missão era tentar falar com o príncipe de qualquer jeito, e dele conseguir uma mensagem especial para toda a comunidade paranaense. Mas como atravessar um esquema de segurança tão bem estruturado, com Exército, polícias Federal e Militar e ainda a segurança japonesa que acompanhava o príncipe? Isso sem contar que nem no Japão se entrevista o Kotaishi Denka (maneira como os japoneses referem-se ao príncipe-herdeiro Naruhito) dessa forma, sem nem um agendamento prévio.
Felizmente, não foi preciso quebrar nenhuma regra para me aproximar do príncipe, embora não tenha sido possível chegar tão perto a ponto de poder fazer uma pergunta. No Imin Center, deparei-me com a assessoria de imprensa com dificuldades para orientar a equipe da imprensa oficial do Japão e consegui uma ocupação de última hora: tornei-me intérprete temporária deles. Ajudei a posicionar a equipe da imprensa japonesa em uma área restrita e, como eles poderiam precisar de mais informações, fui ficando por ali. Assim, presenciei uma parte do roteiro do príncipe que apenas as autoridades, organização e imprensas oficiais poderiam ver, em um espaço reservado do Imin Center.
O percurso de Naruhito foi rápido. Ele chegou depois de todas as autoridades, e sob forte escolta policial. Cumprimentou rapidamente as pessoas, participou do lançamento da pedra fundamental do parque, inaugurou o monumento do Imin 100 e plantou simbolicamente uma muda de cerejeira. Tudo muito rápido. Caminhou algumas dezenas de metros até o Museu da Imigração.
Quando todos se aglomeraram ao seu redor à entrada do museu, tentei aproximar-me. Mas o coordenador da imprensa da Casa Imperial veio me dizer que havia um fotógrafo aproximando-se demais do príncipe, e que eu devia contê-lo. E também ficar de olho em um outro cinegrafista, que parecia querer fazer o mesmo. Só então percebi que, com cara de japonesa e vestida de terno preto, parecia que todos ali achavam que eu realmente fazia parte da organização.
Como a programação estava bastante atrasada, o príncipe não pôde permanecer por muito tempo diante do monumento em homenagem aos pioneiros, onde depositou flores. Nos cerca de 100 metros de caminhada em direção ao palco no qual seria realizada a cerimônia oficial, tentei mais uma vez me aproximar. Cheguei a caminhar a uns cinco metros de distância de Naruhito, mas, a partir daí, um segurança japonês que estava sempre ao lado do príncipe não me deixou avançar.
Discursos e atrasos
Com um constante sorriso no rosto, o príncipe-herdeiro parecia não se preocupar com os atrasos, não se incomodar com a quebra de protocolo (como quando o ex-deputado federal Antônio Ueno estendeu-lhe a mão para cumprimentá-lo, ou o governador Roberto Requião deu-lhe um tapinha nas costas - vale lembrar que não se pode tocar o príncipe).
Durante a solenidade de abertura, Requião lembrou que a história da imigração japonesa confunde-se com a colonização e desenvolvimento do Paraná, mencionou a irmandade com a província de Hyogo e criticou o endurecimento das regras da União Européia contra os imigrantes, entre outros. ''Brasil e Japão já deram belos exemplos de convivência e respeito, em relação aos seus imigrantes. Podemos ser referência de uma harmonia possível, desejável e necessária'', pronunciou. Seu longo discurso, de mais de 20 minutos, motivou vaias por parte dos espectadores, diante de um Naruhito com a expressão inalterável.
Quando o discurso do vice-presidente José de Alencar começava a se alongar, motivando novas vaias, ele disse à platéia que já estava terminando, e que, como mineiro que é, aprendeu desde cedo a admirar esta terra - trecho que não foi traduzido para o japonês. O vice-presidente utilizou a tevê digital como um exemplo de parceria entre os dois países. ''A matriz é japonesa, com contribuição brasileira. É uma vitoriosa parceria nipo-brasileira que se concretiza'', enunciou, após encurtar seu discurso.
Nomeado presidente honorário do Ano de Intercâmbio Japão-Brasil, o príncipe afirmou em seu breve pronunciamento para 30 mil pessoas que, nesta sua segunda visita ao País (a primeira foi em 1982), pôde notar o progresso do Brasil. ''Sem esquecer a admiração pelo esforço contínuo por longos anos dos descendentes japoneses em solo brasileiro e o agradecimento à calorosa receptividade do Governo do Brasil e seu povo para com os imigrantes japoneses, é meu desejo que a relação bilateral se desenvolva por longa data. Se minha visita contribuir para estreitar ainda mais as relações de amizade e fraternidade entre os dois países, ficarei muito feliz'', destacou. Naruhito encerrou seu discurso, desejando a todos os presentes que ''atuem ativamente como a ponte que interliga a relação de amizade entre ambos os países''.
O príncipe ainda aplaudiu as apresentações que se seguiram, sem manifestar qualquer sinal de incômodo devido ao atraso, que já chegava a uma hora - algo inaceitável no Japão. Acredito que, mais do que demonstrar o respeito e a cordialidade típicos dos japoneses, Naruhito explicitava, nessas atitudes, a sua alegria em encontrar, cem anos depois da chegada dos primeiros japoneses, tamanha devoção à nação que ele próprio representa.

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