Primeiro Mundo perde o encanto
Primeiro Mundo perde o encanto
Oscar FasanoEthel PintoGrande número de brasileiros está optando pela volta ao Brasil. São pessoas de bom nível cultural que perderam o encanto com o chamado Primeiro Mundo. Exemplo disso é Oscar Fasano, de Ribeirão Preto (SP). Ele deixou o Brasil há 10 anos com o sonho de conhecer o mundo e viver todas as aventuras possíveis. Trabalhou com pescaria na Austrália, colheu frutas em alguns países da Europa, conheceu o Canadá transportando veículos pelo interior do país e foi para os Estados Unidos. Morou em Miami onde teve loja de eletrônicos. Sua última parada foi Orlando, onde foi proprietário de uma loja especializada em música.
Fasano conta por que abandonou suas aventuras. Cansei de viver longe da família e dessa vida nos Estados Unidos que se resume a trabalho. Todos dizem que o Brasil enfrenta dificuldades, mas sempre quando ligava para falar com os meus amigos, primos ou simples conhecidos, eles tinham tempo para um churrasco ou mesmo um futebol no final de semana. Eu, que morava nos Estados Unidos, não tinha tempo para mais nada. Era trabalho de segunda a segunda e sempre chegava em casa depois da meia-noite porque o comércio que depende dos turistas brasileiros precisa estar aberto até de madrugada. A vida passava num ritmo rápido e eu não tinha tempo e nem disposição sequer para uma caminhada. Foi aí que decidi ficar perto dos meus pais para retomar o relacionamento com eles depois de 10 anos fora.
Fasano conta que muitos brasileiros que imigraram vivem uma constante frustração, descontentes com o ritmo de vida, com o trabalho e com as dificuldades que o imigrante encontra num país estrangeiro, mas não têm coragem de voltar.
Ethel Pinto, proprietária da Sonria, a mais antiga loja brasileira de Orlando, é outra que optou pelo Brasil. Chilena, casada com o brasileiro Cesar Pinto que se refugiou em Santiago durante o governo militar, os dois deixaram o Chile depois do golpe sangrento do general Augusto Pinochet e queda de Salvador Allende. Mesmo depois de quase 20 anos nos Estados Unidos com cidadania e todas as condições para viver naquele país, Ethel e Cesar decidiram morar no Rio de Janeiro e manter os negócios em Orlando.
Para Ethel, os Estados Unidos não têm nada a ver com família ou educação de filhos. Senti que era preciso dar aos meus filhos um lugar para morar onde eles pudessem criar raiz, um país onde sentissem que era a pátria deles. Esse sentido de estar vinculado a uma terra é algo muito importante diante desse tal mundo globalizado em que tudo parece não ter qualquer significado.
A empresária sabe que sua posição causa incômodo. Tem gente que acha importante morar nos Estados Unidos porque pode usar um Rolex no braço sem ser incomodado. Mas isso é questão de valores. Prefiro morar no Brasil, onde apesar de tudo, ainda tem sentido relacionamento, amizade e solidariedade.
Não há um levantamento preciso, mas recentemente a vice-cônsul do Consulado do Brasil em Miami, Anamaria Nóbrega Fernandes, disse estar impressionada com o número de brasileiros que estão deixando para trás os Estados Unidos e retornando ao Brasil. Os motivos são os mais variados: problemas com a imigração, saudades da família, falta de adaptação ou simplesmente frustração com o sonho americano. Apesar da inegável qualidade de vida do chamado primeiro mundo nem tudo é maravilha na terra do Tio Sam.
A grande imprensa brasileira, segundo opinião comum entre os brasileiros residentes lá, tem insistido em divulgar uma imagem distorcida dos imigrantes. A impressão que se tem, com tantos elogios gratuitos de nossa imprensa, é que o dinheiro aqui anda caindo de árvore. O que não é verdade, diz o publicitário paulista Eraldo Manes, que há 9 anos mora em Orlando.
Eraldo faz questão de guardar recortes de jornais e revistas que contam verdadeiras fábulas sobre feitos e ganhos de brasileiros nos Estados Unidos. O que se lê sobre os imigrantes aqui é uma coisa, mas a realidade é bem diferente. Quem trabalha honestamente não consegue subir como um foguete. A margem de lucro aqui, independente do setor, é bastante reduzida, justamente porque os preços são estáveis. O ditado mais conhecido entre os residentes brasileiros é o seguinte: para se fazer uma pequena fortuna aqui é preciso chegar com uma grande fortuna, diz Eraldo.
É comum encontrar profissionais brasileiros com alta qualificação trabalhando com limpeza de casa, lavando prato em restaurante, entregando pizza, cortando grama ou qualquer outro serviço geral. Frederico R. Silva é um caso típico. Formado em informática pela Universidade de Brasília, era chefe do setor de uma empresa estatal no Distrito Federal. Além de apartamento próprio, carro do ano e condições para viajar com a família, ele deixou para trás uma carreira promissora para tentar a sorte na Flórida.
Sem documento, em três anos não conseguiu emprego em sua área. A reserva de dinheiro acabou. Ele tem trabalhado com pintura e limpeza de casas para manter a família. Minha maior frustração é que, numa área como informática, a pessoa fica desafasa em poucos meses, lamentou. (E.A.)





