Primeira piscina de Londrina sobrevive ao tempo
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sábado, 31 de outubro de 2009
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Em 1940, Londrina ainda engatinhava e tinha apenas seis anos de fundação, mas já tinha uma piscina artificial, construída com pedras nas laterais e fundo aproveitando um lajeadão que se estende por dezenas de metros no terreno com um bom declive. A turma de pioneiros que já passou dos 70 atesta que ela foi muito movimentada, sendo frequentada primeiro por um público familiar e mais tarde por ''damas de fama meio duvidosa''.
O fato é que a primeira piscina londrinense, no Sítio do Pica-Pau Amarelo, está preservada até hoje, mesmo com uma faculdade ocupando parte do que já foi o sítio e com as casas de um condomínio fechado já se aproximando de suas bordas.
Basta dar umas cinco braçadas e mergulhar na história para descobrir, lá no fundo da piscina, uma parte da história da cidade que se prepara para apagar as velas de seus 75 anos e que hoje abriga 500 mil pessoas. O responsável pela preservação do patrimônio é Emiki Tungui, 78 anos, que comprou o sítio há 36 e fez questão de manter a piscina conservada, comentando que é ''dever de todos dar valor às coisas históricas''. Ele só lamenta o fato de algum gaiato ter surrupiado recentemente a plaquinha pregada a uma das pedras que estampava: ''construída em 1940''.
''Em 1951, vi pela primeira vez essa piscina, cheia de gente. O pessoal pagava entrada e o negócio era bom. Tanto que aqui do lado construíram a piscina do Mococa'', destaca o descendente de japoneses, apontando para o terreno à direita do seu, onde está a outra piscina pioneira, também de pedras, construída na década de 1950 e que acabou muito conhecida dos londrineses.
Ao certo o nome de quem construiu a primeira piscina da cidade ninguém sabe, mas o casal Abílio, 83, e Ilda Regiolli, 79, proprietários de uma chácara vizinha ao Pica-Pau Amarelo lembra que o proprietário do lugar era um certo José Neves de Moraes. Porém, na piscina eles nunca nadaram. ''Só fomos a alguns bailes, em uns barracões que tinham ao lado da piscina. Lembro que era um clube muito vistoso. Imagine, o lugar era longe de tudo, eletricidade não existia nem em sonho, mas eles ligavam um gerador e faziam tudo se iluminar durante a noite'', recorda Ilda.
Hoje se chega facilmente ao sítio, que fica na Gleba Palhano (Zona Sul), pertinho da Faculdade Pitágoras. Tem asfalto até à porta. Mas nos áureos tempos da piscina tudo era barro. Carro atolava antes de chegar lá. De carroça até o centro de Londrina era meia hora. No entanto, quem queria se dar ao luxo de nadar em algo que não fosse córrego ou ribeirão não se importava e cruzava as pinguelas do Cambezinho, que ainda não havia se tornado Igapó, para se refrescar na água de mina, bem gelada, que enchia o tanque de pedras.
Até que o proprietário arrendou o lugar a terceiros e a fama do clube deixou de ser das melhores. Otair Sebastião, 81, que chegou em Londrina em 1937 confirma. ''Eu estive lá algumas vezes, no começo, quando a reputação do lugar era boa e a água muito limpa. Íamos em turma, gastando uma hora a pé. Depois ela degenerou, umas mulheres estranhas apareceram, aí não fui mais'', garante.
Já or irmãos Gumercindo, 80, e Antenor Capelo, 77, que em 1954 trabalhavam como motorista e mecânico respectivamente da Companhia Construtora Nacional, a que deu início às obras de água e esgoto da cidade, recordam-se de uma história mais interessante. ''Tinha um colega de trabalho nosso, o Augustão, um polaco de mais de 1,80 metro, que certo dia foi nadar no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Entre um mergulho e outro, ele perdeu a dentadura, que era coisa cara demais naquele tempo. Fomos até lá e foi uma luta para convencer o pessoal a esgotar a piscina para recuperarmos a dita cuja, encontrada no fundo, em meio ao lodo, quando a água se foi'', narram.
Depois vieram outras piscinas, além da Mococa, como uma chamada ''do Gregório'', que funcionou a partir de 1945 na Vila Santa Terezinha, como evidencia uma foto doada ao Museu Histórico; a do Country Club, que é de 1948, e a do Instituto Filadélfia, de 1951... Mas a primeira piscina de Londrina permaneceu firme, sem ser soterrada, e, se depender do seu Emiki, continuará assim, guardando um pedaço da história da ex-capital mundial do café.


