A liderança mundial do Brasil no número de acidentes no trânsito tem custado caro para o Sistema Único de Saúde (SUS). São cerca de R$ 750 milhões gastos por ano no tratamento de traumas, que poderiam ser diminuídos com campanhas de prevenção bem mais baratas. Em Maringá, um estudo mediu o impacto deste tipo de programa, que ao custo de R$ 46 mil reduziu drasticamente a gravidade dos traumas e o número de vítimas fatais durante o período em que foi realizado. O projeto foi coordenado pelo neurocirurgião Cármine Porcelli Salvarani e serviu como base de sua tese de doutorado, defendida no final do ano passado. A idéia agora é expandi-lo para todo o País.
Utilizando o Projeto Pense Bem, criado em 1995 pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, foi desenvolvido um vídeo de oito minutos mostrando números de acidentes, casos reais de tragédias causadas pela imprudência no trânsito e dicas de como evitar este tipo de ocorrência. Durante um ano cerca de 200 mil pessoas tiveram acesso às informações, através de uma rede de facilitadores e multiplicadores, com palestras e distribuição gratuita de materiais, como adesivos e folders. Os números analisados referem-se ao ano anterior à campanha, aos meses em que o trabalho de prevenção foi desenvolvido e ao ano seguinte. ''Foi o primeiro estudo nacional sistematizado de implantação do projeto e o impacto causado por ele no trânsito da cidade'', explica o médico.
A conclusão da tese - intitulada ''O Impacto de Projeto de Prevenção de Acidentes de Trânsito em um Município do Interior do Brasil'' - foi que a campanha não chegou a diminuir o número de acidentes e das vítimas, mas sim da gravidade dos traumas. ''Através da criação de um software foram cadastrados e analisados os acidentes ocorridos durante três anos, envolvendo 13 mil vítimas. O número de vítimas fatais e de traumatismos cranio-encefálicos (que determina a gravidade de um acidente) caiu assustadoramente'', revela o neurocirurgião.
O impacto da queda na gravidade dos ferimentos, segundo Salvarani, causou uma economia com serviços hospitalares de R$ 300 mil ao ano. ''Isso sem falar na repercussão sócio-econômica que significa para um país uma pessoa de 20 anos ficar incapacitada para o trabalho para o resto da vida. É imensurável.''
Segundo o médico, para cada brasileiro morto em acidentes de trânsito três ficam incapacitados definitivamente para o trabalho. Portanto a população paga por ano, através dos impostos, a aposentadoria precoce de 300 mil novos brasileiros. ''O Brasil gasta mais de 5 bilhões por ano para tratar e reabilitar as vítimas de acidentes'', afirma Salvarani.
O médico informa ainda que o neurotrauma, junto com as lesões na coluna, são a principal causa de morte e sequelas decorrentes dos acidentes. ''A violência no trânsito responde por mais de 50% dos traumatismos cerebrais, e a lesão cerebral é irreversível, não tem cura. Ou seja, não há tratamento médico que possa reverter a morte da célula nervosa.'' Daí a importância, lembra o neurocirurgião, do uso do cinto de segurança e, no caso de bicicletas e motos, do capacete, que é capaz de reduzir em até 45% as chances de traumatismo craniano.
Em Londrina, segundo dados da Companhia de Trânsito, o trânsito foi responsável por 79 mortes e 2.698 feridos em 2006. Só este ano já foram 54 mortes (até o dia 31 de agosto) e 1.882 feridos. O comandante da Companhia, tenente Ricardo Eguedis, afirma que uma campanha educativa deve ser realizada durante a Semana Nacional do Trânsito, entre os dias 17 e 25 deste mês, e que a idéia é que se torne um trabalho permanente no município. ''Estamos tentando envolver outros órgãos, como o Conselho Municipal de Trânsito. Nosso maior foco devem ser as motocicletas, que hoje estão envolvidas na maior parte das ocorrências.''

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