De acordo com dados da regional de Londrina da Central de Transplantes, mais de 4,5 mil paranaenses aguardam a chance de receber um órgão. O número de pessoas na fila - que só aumenta - é maior do que a população de 80 municípios do Estado. Em todo o ano passado, entre órgãos captados de doadores vivos e de cadáveres, somente 287 transplantes foram realizados no Paraná. Os números revelam a triste e alarmante situação de milhares de pessoas, que se apoiam na esperança para continuar acreditando que logo ganharão a chance de vida nova.
Preocupado com a situação, o nefrologista Altair Mocelin, coordenador da Central de Transplantes em Londrina, faz um alerta que vai além das tradicionais campanhas para intensificar as doações. Para ele, é preciso também que as pessoas prestem atenção a problemas de saúde que podem levá-las à fila de transplante, como a hipertensão arterial e a diabetes; doenças que danificam rins e coração.
Segundo Mocelin, estudos indicam que para cada um milhão de brasileiros, 150 devem perder as funções renais neste ano. Isso significa que no Paraná, que tem 10 milhões de habitantes, 1,5 mil pessoas devem ir para as máquinas de hemodiálise e, consequentemente, para a fila de espera por um rim. ''Precisamos falar sobre a prevenção, ou seja, evitar que as pessoas cheguem à fila. Uma medida simples, como checar a pressão arterial, pode contribuir para isso'', conclama o médico.
O empresário Marcus Vinicius dos Reis, 53 anos, carrega em sua história de vida um exemplo de como a prevenção pode evitar sérios percalços. Ele só descobriu que sofria de uma hipertensão arterial severa depois dos 35 anos de idade. Muito ativo, praticante de esportes, aos 47 anos recebeu a notícia de que seus rins já não davam conta de filtrar o seu sangue. Foi para a fila de espera por um transplante e começou a frequentar sessões de hemodiálise três vezes por semana, cada uma delas com duração de quatro horas.
''A primeira vez que eu sentei na cadeira de hemodiálise fiquei pensando naquela situação. Dinheiro nenhum podia me tirar dali. É como se eu estivesse em um corredor da morte'', recorda o empresário.
O final feliz para a história de Marcus Vinicius veio três anos depois daquela primeira sessão. Muitos de seus parentes passaram por exames para detectar se poderiam doar-lhe um dos rins, até que os testes de uma prima, que é enfermeira, foram positivos. Em julho de 2006 ele ganhou um novo rim e voltou a ter uma vida normal. ''É como se eu tivesse nascido outra vez'', comemora.
Autorização da família
No entanto, nem todos que estão na fila encontram a mesma felicidade do empresário. Mocelin comenta que a captação de órgãos de doadores cadáveres continua difícil por conta de tabus e de desinformação em relação à morte encefálica. Em 2008, das 326 potenciais doações de órgãos de pessoas que tiveram a morte encefálica diagnosticada no Paraná, 105 não se concretizaram por falta de autorização da família.
Já em relação à recepção de órgãos de doadores vivos, como foi o caso de Marcus Vinicius, o volume não é maior por causa do medo que ronda quem pode ser um doador. ''O doador vivo sempre faz o questionamento: e eu, como fico? Mas estudos mostram que ninguém é prejudicado por doar um órgão'', explica Mocelin.
''Por tudo isso, além de enfatizarmos a questão da prevenção, nunca podemos deixar de lado o apelo para que as pessoas se conscientizem sobre a importância de doar. Conversar com a família, expor a vontade de ser um eventual doador é fundamental'', finaliza o nefrologista.

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