Simone guarda a aliança na bolsa, molha as mãos, aplica o sabão especial e começa a esfregar. Esfrega entre a palma das mãos, entre os dedos, entre o polegar e o indicador, esfrega também o dorso das mãos até chegar ao antebraço. Ela esfrega as unhas umas nas outras, repetidamente, até eliminar toda a sujeira. Enxagua a espuma com bastante água corrente e seca as mãos com papel toalha. Só então está pronta para visitar Israel.
O ritual, repetido cada vez que a professora Simone Amaro da Silva Bertola entra na unidade de terapia intensiva (UTI) neonatal do Hospital Infantil de Londrina, é o único protocolo de higiene colocado em prática pela mãe, que só conseguiu amamentar o filho de apenas um mês de vida por dois dias.
O pequeno Israel nasceu de parto normal, aos nove meses completos. Mas um capricho do destino ainda não permitiu que ele conheça os três irmãos. O mesmo tempo que ele tem de vida, tem de hospital, onde já passou por três cirurgias. Hoje, o bebê, que recupera-se de uma infecção hospitalar adquirida depois de uma das cirurgias, respira com o auxílio de aparelhos e o único carinho que recebe da mãe é um afago na testa. ''Ele identifica a voz da gente e quando está acordado fica procurando'', conta Simone, que visita o recém nascido todas as manhãs.
UTI e infecção são duas palavras amedrontadoras. Se por um lado, a unidade de terapia intensiva é o último recurso utilizado pelos médicos para manter o paciente com vida, e por isso é o leito mais bem equipado de um hospital, é também o lugar mais temido pelos familiares, que encaram a internação na unidade como um sinal de que a situação de saúde do paciente é muito grave.
Para Simone, no entanto, a permanência de Israel na UTI neonatal significa esperança. Ela diz que se sentiria mais segura utilizando aventais, máscaras e luvas ao lado do bebê, mas confia nos métodos de higienização adotados pelo hospital. ''Ele é muito bem tratado, todos são atenciosos e o controle da infecção é bem feito. Como só eu ou o pai tocamos nele, acho que não tem problema apenas lavar as mãos.''
Diferente da rotina das UTIs para adultos, onde o tempo de visita é limitado em meia hora, três vezes ao dia, a visitação nas unidades pediátricas é liberada para os pais. ''É comprovado que a presença dos pais acelera a recuperação da criança. O benefício do contato é maior que o risco'', justifica a enfermeira Sandra Regina Berto Moreira, coordenadora de enfermagem do Infantil.
Todo o resto: a infra-estrutura, o número de profissionais e os procedimentos realizados são praticamente os mesmos nas UTIs neonatal e adulta, salvo as proporções. ''Antes de entrar em qualquer UTI os familiares são orientados a retirar anéis, jóias e a lavar as mãos corretamente. Durante a visita todos são supervisionados constantemente pela equipe médica da unidade'', assinala a enfermeira Sandra Cristina Boni Paulena, supervisora da UTI da Santa Casa de Londrina.
As visitas ocorrem normalmente nos horários de refeição. ''A família pode trazer comida ao paciente desde que respeite a dieta preconizada e é incentivada a ajudar o doente a comer'', diz Sandra. O contato do familiar com o paciente é superficial e se resume em carinho e oração, por isso não há necessidade de utilizar equipamentos de proteção individual (EPIs).
A infectologista Claudia Carrilho, coordenadora da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) da Santa Casa e do Hospital Universitário de Londrina, desmistifica a afirmação de que o avental do médico é o principal agente contaminador nos hospitais. Segundo ela, hoje os médicos usam menos as roupas brancas e mais o avental.
''O avental tornou-se a roupa branca. É um item pura e exclusivamente de prevenção do médico e símbolo de identificação do profissional de saúde'', completa a infectologista. Entretando, ela afirma que as bactérias que colonizam os hospitais são realmente mais resistentes que as bactérias da comunidade, ''devido ao uso contínuo de antibióticos no ambiente hospitalar''.
Para Claudia, a lavagem das mãos é suficiente para impedir a contaminação do doente durante as visitas familiares. ''O contato do visitante com o paciente é muito rápido, por isso a transmissão é mais difícil. Já como o tempo que o profissional de saúde passa com o doente é maior, o risco de transmissão também cresce.''
Claudia explica que apenas a manipulação de pacientes infectados com bactérias multiresistentes requer o uso de equipamentos diferenciados, como jaleco, máscara, luvas e óculos, tanto por parte do profissional como do familiar. ''Dependendo da patologia e do tipo de contato a lista de EPIs é diferenciada'', informa Claudia.
Segundo ela, o índice de mortalidade por infecção hospitalar em Londrina é baixo, menos de 5%. Estes dados, divulgados pela literatura médica, também revelam uma realidade nacional. ''A maioria das infecções hospitalares se cura. Os casos de morte são de pessoas idosas, mais debilitadas, ou que possuem graves patologias de base.''

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