Presos voltam a estudar na cadeia
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quinta-feira, 17 de agosto de 2000
Sid Sauer De Campo Mourão 
Dos cerca de 70 presos da cadeia de Campo Mourão, pelo menos 30 estão estudando. As aulas são dadas pela professora Loedi Alves Barbosa através de apostilas do Centro Estadual de Ensino Básico de Jovens e Adultos (Ceebja). O trabalho de Loedi, que é professora da rede pública estadual, é voluntário e faz parte de uma série de ações realizadas pela Igreja Presbiteriana do Brasil junto aos presos e seus familiares. As aulas começaram há dois anos.
Três alunos que já saíram da prisão estão continuando os estudos que iniciaram na prisão, conta Loedi. Ela vai todas as terças-feiras à tarde na cadeia. Numa semana, ela distribui as apostilas. Na semana seguinte, tira dúvidas e, se os presos já se sentirem preparados, aplica as provas. Eles são aplicados e demonstram interesse, conta Loedi. As apostilas são cedidas pelo Ceebja e fotocopiadas no Fórum. As aulas são dadas dentro das celas.
Segundo Loedi, no ano passado 15 presos concluíram o ensino fundamental e três o curso de alfabetização. Os resultados só não são melhores porque o presídio é provisório e muitos são transferidos no meio do curso, conta a professora. Outra dificuldade é conseguir a documentação dos presos para a matrícula. Osvaldo de Oliveira Claro, 37 anos, condenado a 10 anos de prisão por assalto, é um dos casos lamentados por Loedi.
Parei de estudar há muito tempo e não consegui os papéis que precisava, conta Claro, que tem apenas a 4ª série. Ele já está preso há três anos e meio. Wilson Alves do Santos, 31, preso há um ano e quatro meses, teve mais sorte. Ele chegou à cadeia analfabeto e hoje já sabe ler e escrever. Santos diz que nunca havia estudado porque teve que trabalhar. Fui engraxate e bóia-fria.
Denílson Pereira, 26 anos, também está preso há um ano e quatro meses, por tráfico de drogas. Ele concluiu o supletivo de 1ª a 4ª série na cadeia, no ano passado, e inicou o curso de 5ª a 8ª série. Com esse estudo, pelo menos a gente não fica com o tempo totalmente perdido.
Dos 30 presos que estão estudando, três cursam o supletivo de ensino médio (antigo 2º grau). Um deles é Marcelo George Duda, 19 anos, preso há sete meses por tráfico. Ele já tinha terminado a 8ª série quando foi preso, mas estava sem estudar. Agora, ele já fala em concluir o 2º grau e ingressar numa universidade depois que cumprir a pena de três anos de prisão. Quero fazer o curso de direito.
Nílson de Paula Santos, 26 anos, preso há 9 meses e com mais quatro anos para cumprir uma pena por tráfico, é outro que faz o supletivo do ensino médio. Já tinha parado de estudar há mais de cinco anos, mas resolvi aproveitar essa oportunidade, explica.
Já Vladimir Maier, o Gaúcho, 36 anos, não pôde ser matriculado. Ele já tem o 2º grau. Mesmo assim, a professora Loedi achou um jeito de ajudá-lo. Vem passando a ele livros e fitas cassete de um curso de espanhol. Gosto de espanhol e, assim, dá para ocupar o tempo e me aperfeiçoar. Gaúcho está preso há quase três anos e tem que cumprir outros seis anos por receptação de mercadorias roubadas.
Para os presos, outra vantagem de estudar é que, ao final do ano, a avaliação é anexada aos processos deles, no Fórum. O procedimento pode servir como atenuante e ajudá-los na hora da avaliação de seu comportamento na cadeia.


