Quarenta e três detentos iniciaram uma rebelião ontem (1), na cadeia pública de Sertanópolis, no Norte do Paraná, para reclamar das refeições servidas que, segundo eles, estariam estragadas. Para controlar a manifestação dos presos, o delegado Paulo Gomes precisou do apoio de policiais militares de Rolândia (Norte).

Gomes argumentou que a comida foi só um pretexto para evidenciar o problema de superlotação da cadeia. Com capacidade para oito presos, a detenção abriga 43.

Segundo o delegado, a marmita é a mesma distribuída em outras delegacias da região por uma empresa terceirizada de Bandeirantes, que passou a fornecer as refeições para os detentos de Sertanopólis ontem.

"Eles aproveitaram que o serviço da nova empresa iniciava ontem para começar um protesto. Eles não voltaram às celas após o banho de sol", explicou Gomes, que logo após o tumulto, realizou uma revista nas celas, onde foram encontrados três celulares e uma quantidade pequena de drogas, escondidos em uma televisão.

"A cidade é pequena e a violência não para de aumentar. Há menos de 15 dias foram presas 17 pessoas por tráfico e a delegacia, que já estava lotada, superlotou", completou o delegado, informando que três detentos, que seriam os supostos líderes do protesto, foram transferidos para a carceragem de Bela Vista do Paraíso (Norte).

A advogada Ariadne Paduano, representante de dois detentos sob custódia em Sertanópolis, enviou hoje uma denúncia de maus tratos à Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Londrina. Ariadne ouviu 26 presos, os quais relataram a ação violenta dos PMs durante a repressão.

"Não era uma rebelião, essas pessoas estavam pedindo uma comida melhor, que voltasse como estava antes, ou deixasse que familiares trouxessem alimentos para eles. O delegado não autorizou e chamou a PM. Não pude ouvir todos, mas os 26 detentos ouvidos apresentavam hematonas, por várias pancadas de cacetete, e denunciaram ações agressivas por parte da polícia", relatou a advogada.

Conforme ela, durante a ação, os policiais militares teriam quebrado uma televisão, um ventilador e torturado presos.

O delegado Paulo Gomes negou as acusações da advogada. Segundo ele, as famílias podem constatar a integridade dos detentos durante o período de visitas, na tarde de hoje.

"Não é proibido as famílias trazerem alimentos para eles, aliás, as que tem condições trazem, fazemos revistas e disponibilizamos para o preso. Essa foi a gota d'água de muitos outros problemas que sofremos", justificou.

A Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp), por meio da assessoria de comunicação, confirmou o relato do delegado de Sertanópolis e garantiu que não há problemas com a alimentação dos detentos no Paraná.

A vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-Londrina, Caroline Thon, enviou a denúncia para o Centro de Direitos Humanos de Londrina e para o Conselho Permanente de Direitos Humanos do Paraná, que devem investigar a veracidade das denúncias relatadas pelos presos à advogada.

mockup