Presos se apóiam em relações afetivas para aguentar vida atrás das grades
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de junho de 1998
Anna Camanducaia 
Ter uma família ou um relacionamento afetivo fora do presídio aumenta a vontade de cumprir a pena o mais rápido possível e sair às ruas com planos de uma vida nova. Para os internos da Prisão Provisória do Ahú, em Curitiba, quem dá a força para aguentar o dia-a-dia e apoio depois da liberdade é a mulher ou a namorada.
No domingo, dia de visitas, elas começam a chegar às 5 horas. As senhas são distribuídas a partir das 6 horas. Há fila para entrar, quando o acesso é liberado, às 7 horas. O pátio fica cheio até as 16 horas - horário de encerramento. O presídio tem 800 internos. As visitas chegam a 700 por domingo, das quais 150 íntimas.
A mulher continua com o homem, mesmo depois de preso, por ser mais afetiva, ter instinto maternal e por causa dos filhos, diz a psicóloga Zilcar de Jesus Barbiere, que trabalha na prisão.
Na Penitenciária Feminina do Paraná, em Piraquara, os domingos são diferentes. Das 9h às 16 horas, o número de pessoas que chegam para visitar as internas não passa de 40 - nenhuma íntima. A justificativa é que cerca de 70% das detentas (105) são do interior do Estado, principalmente do Norte.
A comunicação com os familiares é feita através de cartas e telefonemas. A penitenciária permite que se faça uma ligação por semana, de no máximo três minutos. A família das internas quase sempre quer dizer mãe ou filhos. Marido ou namorado, a maioria não tem. Quando a mulher é presa, o homem a abandona e até arranja outra. Isso se ele também não estiver na prisão, diz a diretora do Presídio Feminino, Elizabeth Pereira Bettega.
A assistente social Marciana da Cunha Bastos diz que as mulheres são muito usadas. Elas são mais submissas e eles se aproveitam da situação. Eles não pedem para as mulheres, eles mandam. Cerca de 65% das internas (98) foram presas por tráfico de drogas. Em muitos casos, o marido ou a família as envolveu no crime.
Não é à toa que as internas consideram os filhos mais importantes que os companheiros.


