Londrina- Existe uma expressão que diz que um preso vê o sol nascer quadrado. Mas para os presos que participaram de um programa de inclusão social e reabilitação psicossocial de dependentes químicos na unidade 1 da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL), o quadrado em questão não era a visão do astro-rei limitada pela janela da cela, mas os quadros nos quais eles desenharam imagens da natureza por meio da técnica do mosaico.
A visão de mundo que eles tinham do tempo em que estavam livres foi transposta para as telas por meio da colagem de pequenos pedaços de azulejos de diferentes cores. Flores, borboletas, sol e frutas são algumas das imagens que permearam o imaginário desses apenados. O resultado desse trabalho pode ser visto na Mostra Cultural do Programa de Extensão Universitária da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que está sendo realizada no Sesc Cadeião.
O projeto, desenvolvido com objetivo incluir socialmente dependentes químicos que estão detidos na PEL 1, é financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Segundo o professor de Enfermagem na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e coordenador do projeto, Marcos Hirata Soares, a ideia surgiu da necessidade de trabalhar a inclusão social do dependente químico. Ele explicou que a técnica do mosaico é uma das atividades mais indicadas como terapia para dependentes químicos, já que os presos expostos a este trabalho apresentam tendências de recuperação e reinserção social. "Queríamos proporcionar a essas pessoas a oportunidade de aprendizagem e melhorar o suporte social", destacou.
Soares apontou que há muita rejeição social do apenado, que sofre preconceito até dos familiares. "O mosaico é uma das atividades ministradas no Caps-AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas). Então pensei, por que não levar isto para os presos?", questionou.
A arquiteta com especialização em arteterapia, Regina Minto, foi convidada a participar do projeto como professora. "Foi necessária uma adaptação inicial, porque é uma realidade totalmente diferente se comparada a da gente, que está aqui fora", destacou. Ela explicou que primeiramente os presos tinham que se familiarizar com o conceito e que, naquela atividade, eles não eram presos, mas alunos. "No início eles entraram no projeto só para sair da cela. Depois passaram a frequentar as aulas porque ficaram interessados. Eles se encantaram com o que produziram", relatou. "Claro, que havia defeitos na primeira obra, mas muitos viram que poderiam melhorar. Fiz esse exercício com eles."
Assim como as obras que eles fizeram tinham pequenos defeitos e podiam ser melhoradas, Regina incentivou que os apenados não desistissem do lado bom deles. "Eu acredito que até as pessoas que cometeram os piores atos possuem um lado bom", apontou. Ela se disse surpresa com os temas escolhidos pelos presos para compor as telas, predominantemente com imagens da natureza ou corações. "Não houve direcionamento. Foram eles que escolheram os temas. Foi uma surpresa."
Regina Minto ressaltou que o mosaico é um trabalho rústico, mas que exige delicadeza nos encaixes. "Os homens se encantam porque a técnica exige o uso da força (para quebrar os azulejos)", analisou.
Cristiano Ivano, diretor da PEL 1, ressaltou que todos os cursos ministrados na unidade geram expectativa, mas este em especial deixou os presos ansiosos em participar da atividade. "Formou-se uma fila de espera. Eles gostaram e tiveram um bom comportamento durante as atividades", revelou.
De acordo com Ivano, a participação na oficina proporcionou melhora da autoestima entre os internos. "Eles tinham psicólogo, assistência jurídica e atendimento à família. Se todas as unidades prisionais tivessem essa equipe multidisciplinar, melhorariam muito", observou.

Serviço:
Mostra Cultural do Programa de Extensão Universitária da UEL
Até 31 de maio
Sesc Londrina Cadeião
Rua Sergipe, 52 - (43) 3572-7700
De terça a sexta-feira – das 10h às 21h
Sábados e domingos – das 10h às 18h

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