Curitiba - Um médico que atuava na Lapa (71 km a oeste de Curitiba) há 31 anos foi preso ontem de manhã pela Polícia Federal (PF), acusado de falsificar guias de internação para cobrar por cirurgias feitas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Entre o material apreendido, a PF encontrou vários livros com registros escritos à mão, que mostram que pelos menos desde 1979 o médico Luiz Lauro Lacks já estaria cobrando ''por fora'' para fazer as cirurgias, que eram realizadas em hospitais públicos da cidade.
A PF vinha investigando o caso há cerca de três meses, desde que recebeu denúncias encaminhadas pela Secretaria Estadual de Saúde e pelo diretor do hospital São Sebastião, Antônio José Lemos, onde o médico trabalhava. ''Ele fazia os procedimentos pelo SUS e cobrava por fora. Vários precedentes que encontramos indicam crime'', disse o delegado da PF, Fernando Francischini, logo após a prisão.
''Em um caso, o paciente disse que só poderia pagar em duas parcelas. Ele então tirou metade dos pontos da cirurgia e só retirou a outra metade quando ele pagou o restante. Há outro caso de um paciente que ainda estava no hospital, sob efeito da anestesia, ele chegou e cobrou. Como ele disse que não estava em condições de pegar o dinheiro, o médico mesmo foi até onde estava a calça dele e pegou o valor devido'', contou o delegado.
Segundo Francischini, os pacientes lesados são em sua maioria gente humilde, oriunda das classes sociais mais baixas. ''Era gente que não tinha como pagar, tinha que vender pá, enxada, porco, galinha. E quem era rico não pagava. Ele era um Robin Wood ao contrário'', afirmou. De acordo com ele, ao mesmo tempo em que cobrava por fora de pacientes do SUS, o médico lesava o sistema público. Clientes atendidos na clínica particular eram encaminhados para serem operados no hospital público.
Ao chegar na sede da PF, em Curitiba, o médico negou as acusações. ''Como é que eu ia falsificar guias de internação se não ganho nem por serviço prestado pelo SUS? Sou funcionário do Estado. Não internamos por dinheiro, mas por necessidade do cliente, muito diferente do que ocorre em hospitais privados'', afirmou. Para ele, as acusações foram motivadas por um ''movimento de um diretor do hospital''.
Lacks foi preso por volta de 7 horas, em sua residência, na Lapa. Também de manhã, a PF realizou buscas em dois locais de trabalho. O médico teve prisão preventiva decretada pela 3 Vara Criminal Federal e responderá por corrupção, concução, falsidade ideológica e coação.
Em Londrina, a polícia prendeu um funcionário de um hospital que é acusado de ajudar o médico. Ele estava participando de um evento na cidade.

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