Paulo Pegoraro
Cláudio Crispim, 48 anos, quer doar todos os órgãos possíveis de doação em vida. Ele está à espera de interessados no minipresídio da 15ª Subdivisão Policial (SDP) de Cascavel, onde cumpre pena de 4 anos e 10 meses por estelionato. Pai de seis filhos, separado há 5 anos da mulher, Cláudio é seguidor da Igreja Batista que, segundo ele, não influenciou em sua decisão. ‘‘Acho que na hora do acerto de contas com Deus, o que a gente fizer de bem para os outros vai contar, na comparação com o que fizemos de mal. E isso vale para qualquer religião’’, entende.
O preso reconhece que já cometeu ‘‘muitos pecados’’, participando de um esquema de falsificação de carteiras de habilitação de motoristas e já esteve preso em São Paulo, de onde é procedente. Em Cascavel, ele voltou a agir até ser preso há pouco mais de um ano. Dotado de forte sentimento religioso, ele lê sempre a Bíblia que tem em sua cela e participa regularmente de cultos realizados no minipresídio. ‘‘A vida na cadeia não tem nada de boa, mas, se a gente tem Deus no coração, torna-se mais suportável’’, diz.
Crispim decidiu doar também a medula óssea - ao contrário do coração, fígado, córneas ou o segundo rim, possível de doação apenas em vida. A medula, tecido do interior dos ossos, é considerada como ‘‘sangue no estado mais puro’’ para regenerar a vida. O preso, que não fuma e não bebe, tem diabetes, mas, particularmente, acha que isto não é empecilho. ‘‘Conheço gente com o mesmo problema que já doou órgãos’’, diz.
Os propósitos do preso, porém, podem esbarrar na questão legal. O nefrologista Luiz Alberto Batista Perez, que cuida da parte clínica de transplantes renais, escolhendo doadores compatíveis e acompanhando a etapa pós-cirurgia (quando pode ocorrer rejeição pelo receptor), observa que a lei de doações exige, além de vários quesitos de compatibilidade, que o receptor seja parente, pelo menos até terceiro grau. ‘‘De outra forma, há necessidade de autorização judicial’’, explica Perez, que já participou de 96 transplantes de rim feitos pela equipe de um hospital local.
O nefrologista acrescenta que pessoas que tenham diabete dificilmente podem doar rim. No caso do segundo rim, coração e fígado, a doação e consequente retirada destes órgãos deve ser feita imediatamente após a morte cerebral, quando eles ainda mantêm as funções. No caso de córneas, até quatro horas após o coração parar de pulsar. Ainda assim, a doação deve ser feita para banco de órgãos.
O médico acha que a legislação poderia ser adaptada ‘‘para casos de doadores espontâneos em vida’’, caso do próprio Cláudio Crispim, ‘‘para beneficiar maior número de pessoas’’.

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