Estudo elaborado pela arquiteta Mirna Lobo aponta que a desativação do Presídio do Ahú, em Curitiba, pode render um negócio milionário para empreiteiras e imobiliárias. O governo do Estado quer permutar o complexo penal com a iniciativa privada. Pelo levantamento da arquiteta, o potencial construtivo do terreno do Ahú, avaliado em R$ 19,7 milhões, tem condições de abrigar uma área edificada três vezes maior do que o tamanho do imóvel, que é de 70 mil metros quadrados.
A avaliação sustenta que o potencial pode ser obtido com o uso do subsolo, por exemplo. ‘‘Antes de lançar o edital, o governo deveria discutir com a sociedade qual seria o melhor uso para a região’’, afirma Mirna, que reside no bairro Ahú. ‘‘O edital não deveria ser lançado, porque se ali sair mais um shopping, vai congestionar toda a região, que também vai ficar descaracterizada.’’
Preocupados com a exploração comercial do terreno, moradores criaram o ‘‘Movimento Ahú Livre’’. No estudo que Mirna finaliza para a organização, a proposta é de que a área abrigue o novo Fórum de Curitiba, um prédio residencial, lojas, centro cultural e uma praça.
O prédio histórico da penitenciária, que tem 97 anos, seria transformado no Fórum de Curitiba. ‘‘As varas do Poder Judiciário estão hoje em salas apertadas. O uso do prédio do Ahú poderia solucionar esse problema’’, comenta a arquiteta. As outras três unidades seriam construídas para criar o centro cultural, as lojas e moradias.
Mirna acredita que como o terreno foi doado em benefício da população no final do século passado (era hospício e depois virou presídio a partir de 1909), o governo do Estado seria obrigado a planejar uma utilização pública para o imóvel. ‘‘Aquela área pode ser caracterizada para uso especial, pois é de interesse público.’’
A eventual construção de um empreendimento privado deixa os moradores na expectativa de mudanças na rotina das ruas próximas. O ambientalista José Álvaro Carneiro pede condições que possam garantir a tranquilidade dos moradores.
‘‘É preciso criar garantias para evitar o barulho provocado pelo aumento do trânsito e a poluição atmosférica na região. Merecemos um tratamento melhor do que a realidade do mercado’’, diz Carneiro. ‘‘A gente precisa de uma compensação pelos 100 anos de convivência com o que existe de pior na sociedade.’’
O edital de licitação, que será publicado hoje no Diário Oficial, prevê que o governo entregue o terreno para a empresa que oferecer o menor preço na construção de três presídios. Eles devem totalizar 1,4 mil vagas. A vencedora da licitação ficaria com a autorização para explorar os 70 mil metros quadrados de acordo com seus interesses. A única ressalva do edital é a preservação do prédio histórico do presídio.

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