‘‘Temos que mudar a concepção de que Policial Militar não é gente. A forma arcaica e desumana com que ele é tratado tem que ser revista, pois o torna um homem estressado e psicologicamente revoltado. Eu senti isso na pele, pois meu marido cansou de reclamar para mim e acabou morrendo. Como é que uma pessoa que precisa de cuidados vai cuidar da segurança dos outros?’’
O desabafo é da dona de casa Dilea Máximo Freire, viúva do soldado Marcos Freire, 29 anos - morto por um ladrão em 30 de maio de 1997, durante um assalto ao posto do Banestado no câmpus da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
No último dia 12, Dileá Freire assumiu a presidência da Associação das Esposas dos Policiais Militares de Londrina e diz que pretende lutar para mudar este quadro. Na opinião dela, o problema estrutural do Policial Militar, além de atingir a sociedade como um todo, também prejudica a sua própria família.
Dilea afirmou que o PM não tem tempo para dar atenção e lazer à família e isto interfere no seu comportamento. Ela contou que chegou a passar uma semana vendo seu esposo apenas de madrugada. ‘‘Poderíamos ter nos curtido mais e quem sabe nossos destinos não terminassem em desgraça’’, imagina.
O soldado Marcos Freire deveria esta de folga no dia em que foi morto, mas foi obrigado a cumprir uma escala extra de trabalho. ‘‘Tínhamos a intenção de ficar juntos, passear, nos divertir um pouco, para colocarmos nossas coisas comuns em dia. Mas não deu...’’
Entre tantos outros problemas que enumera, Dilea denuncia que o policial militar não tem acompanhamento psicológico e muito menos os seus familiares, diante de todos os problemas que enfrentam. Os dois filhos do casal, Duliam, três anos, e Dérik, seis anos, sentem muita falta do pai.
‘‘Eles sabem que o pai morreu estupidamente. Ontem, o Duliam perguntou quando o pai vai voltar do céu’’, comentou Dilea. Quando ocorreu a tragédia, relatou ela, o menino tinha um ano de idade. ‘‘Ele tem saudades e consciência da perda do pai. O Dérik sofre caladinho, pois é um menino esperto e disse que não quer me ver triste, falando da morte do pai.’’
Dilea comentou que, em conversa com outras esposas de policiais militares observou que os problemas se igualam. A preocupação das mulheres e dos policiais é a falta de segurança econômica e de perspectiva em relação ao futuro das famílias. A presidente se queixou de que o atendimento dado pela corporação, na época em que ficou viúva, com dois filhos pequenos para criar, durou pouco tempo.
‘‘Em menos de dois meses, o comando da Polícia Militar nunca mais me perguntou como eu estava. A gente fica numa solidão total, completamente impotente diante dos problemas’’, disse. ‘‘Não quero esmola, mas acho que é dever do Estado ter um pouco mais de consideração por aqueles que perderam a vida no cumprimento do dever.’’
Ela recebe, mensalmente, pensão no valor de R$ 350,00. Parte do dinheiro vai para sobrinhos que Freire estava criando. Além disso, é descontada pelo Banestado uma quantia referente a um empréstimo feito por Dilea para montar uma academia de ginástica, que ajudaria a complementar a pensão, mas não deu certo. Para sobreviver, conta com a ajuda dos pais.
‘‘Não vou lutar em causa própria, porque já estou acionando o Estado para receber o que me é de direito. Quero que outras mulheres não sofram o que estou sofrendo e que o Policial Militar seja tratado como um ser humano.’’ Se precisar, prometeu, vai recorrer ao governador do Estado para tentar mudar a situação.Paulo WolfgangDramaDilea e os filhos: marido foi morto durante assalto a bancoPaulo Ubiratan

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