Presente de grego
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quarta-feira, 10 de julho de 2002
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
As irmãs Jennifer e Walkyria (assim mesmo, com dois ns, w e y) nasceram no mesmo dia, no mesmo hospital, com uma diferença de quatro anos. O excesso de coincidência no nascimento talvez tenha colaborado para que elas crescessem completamente diferentes. Uma magra, alta, cabelos cacheados, professora de francês; a outra baixa, gordinha, cabelos lisos, agente de turismo. Brigavam como só irmãs sabem e podem brigar: se xingando num dia e comemorando o penta no outro. Jennifer, a que trabalhava com turismo, era extrovertida e festeira. Walkyria, tímida e séria.
Naquela sexta-feira, Jennifer tinha dois convites para o fim de semana. Como um deles incluía um certo piloto da Vasp em quem ela andava de olho, resolveu dispensar o outro. Na última hora, porém, lembrou da irmã, que nunca saía de casa. Passou a mão no telefone e fez a oferta: ''Wal, que tal você e o Carlitos almoçarem amanhã num hotel fazenda?'' Pensando em agradar o marido chileno, que adorava uma boca livre, Wal topou. A oferta era mesmo irrecusável. Um hotel fazenda região estava oferecendo um autêntico almoço caipira para representantes das agências de turismo da cidade.
No sábado, Walkyria e Carlitos correram para o almoço. O hotel era mesmo maravilhoso. Muito verde, decoração rústica, serviço impecável. Walkyria e Carlitos chegaram no restaurante já lotado e sentaram-se numa mesa nos fundos do salão. ''Melhor assim, ninguém repara na gente'', comentou ela. ''Imagine se descobrem que não entendemos nada de turismo.'' A comida demorou para chegar. Em compensação, serviram caipirinha de pinga, batidinhas e vinho artesanal. Carlitos experimentou tudo.
O almoço foi um sucesso: arroz, feijão, porco no tacho, mandioca cozida, frango ensopado, salada de agrião com abóbora. Assim que terminaram, Walkyria decidiu aproveitar a chance para saírem incógnitos. Nesse instante o gerente do hotel anunciou um sorteio de brindes. Carlitos arregalou os olhos: se tinha uma coisa que ele gostasse ainda mais do que boca livre era sorteio! ''Ir embora agora? De cheito nenhum! Bamos esperar más un poco que eu quero llevar uns regalos para casa.''
Os brindes foram saindo protetor solar, toalha de banho, sabonetes perfumados. ''Pronto, Carlitos, acabou. Vamos embora'', disse Walkyria. O chileno também ficou em pé, mas seguiu direto para o gerente. ''Meu querido amigo, nós adoramos a sua comida, mas ficamos tristes porque temos que ir para casa sem nenhum presente'', discursou. O gerente abriu um sorriso amarelo e tentou consertar a cena: ''Deve ter havido algum engano. Qual é a agência de vocês?'', perguntou. Carlitos ficou com cara de bobo; em seguida, recuperou a iniciativa, gritando do meio do salão em direção à esposa: ''Mi amor, como se llama a nossa achência de turismo?''.
Aquela altura, o gerente já tinha percebido o ''bafo'' de pinga e avaliado a situação. Decidiu agir. Passou o braço nos ombros de Carlito e anunciou longe do microfone: ''Como vocês não foram sorteados, vão ficar com o prêmio consolação: um fim de semana com tudo pago aqui no hotel''. Carlito vibrou e comemorou abraçando não só o gerente, mas o pessoal das mesas ao redor. Quando Walkyria conseguiu arrastá-lo para a porta ele já tinha feito a maior propaganda da escola de francês.


