Preguiça ou otimismo?
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 15 de janeiro de 2003
Phoenix Finardi<br>Reportagem Local 
Maria passou mais uma camada de filtro solar no rosto e ajeitou o boné. Por causa de um tratamento de pele, não podia tomar sol de jeito nenhum. Colocou os óculos escuros, pegou as chaves do carro, um Corsa verde, e saiu.
Enquanto enfrentava o trânsito Maria ia remoendo as culpas rotineiras. ''Eu devia ter fechado a janela da cozinha. Se chover vai molhar o balcão e estragar o rádio'' pensava.
Maria tinha o péssimo hábito - que atormenta muita gente - de não fazer as coisas e depois ficar se culpando. Por exemplo: não recolhia a roupa do varal ao sair de casa, deixava o carro na rua e depois passava a tarde toda preocupada. O marido dizia que era preguiça. Os amigos diziam que era otimismo - no fundo, ela nunca acreditava que alguma coisa ruim pudesse acontecer.
Essa era também a desculpa para sair de casa sem a bolsa e dirigir de chinelos: '' Vou só ali na esquina, já volto.'' Da esquina passou a ir ao clube, depois buscar as crianças na escola e, finalmente, até o centro da cidade - se fosse uma saída rápida.
E assim, lá vai Maria, sempre preocupada: ''Eu devia ter deixado a chave de casa na vizinha. Se o Nino chegar em casa e eu não estiver, como vai entrar?'' Nino era o filho mais velho.
Uma olhada pelo retrovisor mudou o rumo da preocupação. Um carro de polícia vinha logo atrás. Um daqueles carros grandes, da Rone. Maria imediatamente olhou para os pés com os chinelos e lembrou que deixara a bolsa com os documentos em casa. Experimentou acelerar um pouquinho: '' Não deve ser comigo.'' A polícia acelerou também. Assustada, ainda tentou virar à direita na primeira esquina. A polícia ligou a sirene. Sem outro remédio, Maria encostou no meio fio. Nem bem abriu a porta, foi cercada por policiais armados com escopetas.
- Seu guarda, eu posso explicar... Foi interrompida pelo policial:
- Minha senhora, eu peço desculpas. Houve uma confusão. Nós recebemos um alerta de assalto e o carro é um Corsa verde. Como a senhora está de óculos e boné... Foi um erro, desculpe.
Muda de alívio, Maria entrou novamente no carro e já se preparava para sair quando o policial apontou na janela e cochichou:
- Dona, só uma coisa... se eu fosse a senhora, colocava o cinto e tirava os chinelos.


