Um grupo de moradores do Conjunto Cafezal I, Zona Sul de Londrina, resolveu tomar para si o cuidado de uma área de fundo de vale, na Rua Antônio Visitação Lopes Rubio, que, segundo eles, ficou abandonada pela Prefeitura nos últimos anos. Além de limpar o mato que invadia as calçadas, os moradores plantaram frutas e verduras, que eram consumidas por eles e pela vizinhança.
No mês passado, conforme contou Josefa Francês, que cultiva um pedaço da terra há mais de duas décadas, a Prefeitura destruiu as plantações e derrubou algumas árvores com o intuito de limpar a área para dar início a um projeto de urbanização do fundo de vale. ''Passou um mês e nada. Eles não vieram nem recolher as árvores ou limpar o mato na calçada'', constatou a moradora.
Ela disse que sempre foi assim. ''De repente eles decidem usar o terreno e destróem tudo o que a gente plantou, o tempo passa e nada é feito. Eu resolvi plantar tudo de novo porque sei que não vai sair projeto nenhum'', disse Josefa, que costuma cercar a área cultivada ''para evitar que animais destruam a horta''.
''A gente não quer terra nenhuma, a gente planta por prazer porque tá tudo abandonado'', confessou a moradora, reforçando que irá desafiar a promotoria do meio-ambiente, que autorizou a limpeza do terreno. ''Cerquei tudo de novo e vou plantar de novo para ver se dessa vez eles fazem alguma coisa.''
A família de Fátima Ribeiro Lopes também cultivava um pedaço de terra há nove anos e teve toda a plantação destruída pela Prefeitura. ''Tinha bananeira, laranja, limão, tangerina, feijão, horta. Toda a produção era dividida com os vizinhos.'' Intimidados, eles desistiram de plantar.
Abel Nestor Ribeiro é morador da rua e não concorda com as hortas e pomares cultivados pelos vizinhos, no entanto, também cobra uma ação da Prefeitura, que prometeu construir uma área de lazer para a população do bairro. ''Eles serraram algumas árvores, limparam o entulho, mas o povo voltou a jogar lixo no terreno, que ficou abandonado.''
''Precisamos de um lugar de recreação para as crianças, que hoje brincam na rua, e também de uma pista de caminhada, já que o pessoal corre risco de vida ao fazer exercício na marginal do Iapar'', reforçou Ribeiro.
De acordo com a promotora de Defesa do Meio Ambiente, Solange Vicentin, é proibido por lei qualquer cultivo em áreas de preservação permanente, como é o caso do fundo de vale do Cafezal I. ''Inclusive já tinha notificado os moradores da região'', informou a promotora.
Segundo ela, os infratores podem responder por crime ambiental e até cumprir pena de um a três anos de detenção. ''É necessário reparar a proteção ciliar com espécies nativas e não mandioca e frutas'', assinalou Solange. Para Solange, o projeto de urbanização da área, proposto pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema), vem a calhar. ''Se o local fica abandonado, a tendência é a comunidade tomar conta mesmo, ainda que de forma irregular.''
De acordo com o secretário de Meio Ambiente, Gerson da Silva, ainda faltam recursos para colocar o projeto de revitalização em prática. ''A área está bastante impactada com erosão. A mata tem que ser recuperada e a população tem que ajudar a conservar o local, já que muitos ainda jogam entulho no fundo de vale'', constatou.
O secretário propôs uma parceria entre a Prefeitura e os moradores para evitar a degradação da área. ''A urbanização do fundo de vale do Cafezal faz parte do projeto de revitalização do Córrego do Saltinho, inclusive com a construção de pista de caminhada, e está nos planos do Município. Mas temos que rever o orçamento deste ano ou, quem sabe, esperar até o ano que vem para começar a obra.''

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