Uma antiga fazenda improdutiva de 200 alqueires em Iretama (65 km ao sul de Campo Mourão), que até o início do ano passado abrigava apenas uma família, hoje conta com 40 famílias que transformaram a área numa das mais diversificadas e produtivas do município. Tudo isso sem que fossem necessárias invasões de sem-terra ou conflitos entre fazendeiros e futuros assentados. Muito menos choques com a Polícia Militar.
O Assentamento Municipal Águas de Jurema é fruto de um projeto elaborado pela prefeitura de Iretama e financiado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Cada família ganhou casas de alvenaria ao custo de R$ 2,5 mil, um lote individual de pouco mais de um alqueire e outros 140 alqueires para serem administrados de forma coletiva. Também receberam, cada um, R$ 7,5 mil para o início das atividades.
O assentamento foi inaugurado em agosto do ano passado e já apresenta sinais positivos. Até agora, foram colhidos mil sacos de feijão, 3 mil arrobas de algodão e 4 mil sacos de milho, além de 400 toneladas de silagem. ‘‘Isso aqui era pura quiçaça’’, conta o prefeito Same Saab (PSDB), o principal idealizador do assentamento. Os assentados também contam com mais de 200 cabeças de gado e uma produção diária de 500 litros de leite.
‘‘Até o final do ano, a produção de leite chegará aos 1,5 mil litros por dia’’, prevê Same. Todos os 140 alqueires da área coletiva são destinados ao gado. ‘‘A área é muito quebrada’’, explica o prefeito. Para alcançar a meta da produção leiteira, os assentados iniciaram a construção de uma ordenhadeira. Ela deve estar pronta até o final do mês que vem. Por enquanto, a retirada do leite é feita de forma improvisada. Mesmo assim, já atraiu laticínios da região.
A construção da ordenhadeira vem sendo feita pelos próprios assentados. A prefeitura ajuda apenas com a mão-de-obra especializada. Todo o trabalho necessário na área coletiva é dividido. Para isso, existe uma associação que define as tarefas. ‘‘Não vou dizer que não temos problemas de relacionamento, mas tudo vai se acertando’’, diz Same. Em um ano, quatro famílias deixaram o assentamento porque não se adaptaram ao sistema de trabalho coletivo.
As famílias que deixaram o local foram substituídas por outras. A seleção dos assentados foi toda feita pela prefeitura. Nenhum dos escolhidos fazia parte do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Same garante, no entanto, que a escolha foi criteriosa. ‘‘Pegamos pessoas que sabíamos que tinham disposição para o trabalho no campo e o conhecimento necessário para manter uma propriedade diversificada’’, explica.
As dificuldades da fase inicial do assentamento são muitas. Quase um ano depois da inauguração, por exemplo, as casas ainda não têm energia elétrica. Só agora os postes começam a ser colocados. Depois que a energia estiver instalada, será a vez de chegar a água encanada, que depende de um poço artesiano. Por enquanto, as famílias precisam buscar água em minas e se iluminar à noite com lampiões ou lamparinas a gás.

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