Dorico da SilvaBarracos montadosAcampamento de sem-teto em terreno da Fratello Incorporações: 80% das famílias invasoras são de Cambé O prefeito de Cambé, José do Carmo Garcia, descartou ontem a hipótese de desapropriar um terreno de 2.875 metros quadrados na gleba Cafezal para assentar 160 famílias que invadiram a área, pertencente à Fratello Incorporações Imobiliárias Ltda, na divisa entre Cambé e Londrina. Em um encontro realizado ontem pela manhã na Prefeitura, José do Carmo disse ao presidente da Federação das Favelas e Assentamentos de Londrina, José Ricardo da Silva, e ao vice-presidente da entidade, Rubinho Iani, que o município não tem recursos financeiros para comprar o terreno.
Terminou ontem o prazo de dois dias que a juíza Márcia Guimarães Marques Luz concedeu aos sem-teto para saírem da área através de uma liminar de reintegração de posse. O prazo de apenas 48 horas foi bastante contestado por José Ricardo da Silva. Ele reclamou que não havia condições de tirar todas famílias do local.
O presidente da Federação saiu desanimado da reunião com José do Carmo. Nenhuma saída foi apontada pelo prefeito, a não ser a possibilidade de uma conversa com os proprietários da Fratello na tentativa de obter um prazo maior para que os sem-teto desocupem a área.
José do Carmo disse que não é apenas a falta de dinheiro que impede a desapropriação do terreno. Ele comentou também que o Plano Diretor do município não prevê o crescimento urbano para aquela região. Isso quer dizer que a Prefeitura não pode propor a transformação da área de rural para urbana. O prefeito também negou a concessão de outra área para receber as famílias que invadiram o terreno particular, bem ao lado do jardim Olímpico, dizendo que não tinha área disponível.
Segundo José Ricardo da Silva, 80% das famílias invasoras são de Cambé. Na opinião dele, o município tem responsabilidade sobre o destino dessas pessoas. O prefeito observou que a atual administração herdou dívidas e compromissos que ainda não foram acertados, como o salário dos servidores de dezembro de 96.
‘‘As prefeituras deveriam receber uma linha de crédito do Governo Federal para compra de terreno com pagamento a longo prazo. Assim, poderíamos revender para as famílias carentes também a longo prazo’’, ressaltou o prefeito. ‘‘Mas estou de mãos amarradas.’’
José do Carmo lembrou que está em negociação com a Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) para solucionar o problema da área do jardim Olímpico, localizada no município de Cambé e que tem mais de 100 famílias de sem-teto instaladas.
A Federação das Favelas disse que vai continuar tentando um maior prazo para que as famílias continuem no terreno. José Ricardo esteve no local depois da reunião com o prefeito para levar o resultado da conversa. A preocupação é grande entre os sem-teto, que temem uma ação de despejo para hoje ou os próximos dias. Joel Chavier, 26 anos, é o líder das famílias. Casado e com um filho, ele trabalha como músico em uma banda. O salário não deu para continuar pagando o aluguel de R$ 120,00 de uma casa no conjunto Avelino Vieira, em Cambé. ‘‘Se tirarem a gente daqui, vamos acampar na Prefeitura’’, ele avisa. Chavier disse que todos os ocupantes têm interesse em pagar pelo lote, desde que o preço seja acessível.
Edvaldo Vieira do Nascimento, 22 anos, tem três filhos e está desempregado. Ele mora no acampamento desde o início da invasão, há cerca de três meses, depois que perdeu o emprego de vendedor e não conseguiu mais pagar o aluguel, também de R$ 120,00, no conjunto Avelino Vieira. ‘‘Se tirarem a gente daqui, vou ter que levar minha família para um pontilhão.’’

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