Prédio acolhe Valdivino, de Caculé, desde a 1ª pedra
Silvana Leão
De Londrina
Do sertão baiano para a cobertura de um dos prédios mais bem localizados de Londrina, com vista privilegiada para o horizonte. A grosso modo, esta foi a trajetória de Valdivino Gonçalves da Cruz, 57 anos, que há exatos 33 anos e 10 meses mora sobre o 17º andar do Edifício Associação Rural de Londrina, em frente à Praça 1º de Maio, no centro da cidade.
Ele não está ali por ser o dono do condomínio de apartamentos espaçosos, mas por ter ajudado a erguê-lo com dedicação e ter conquistado a confiança do dono da construtora Krech, responsável pela obra. Valdivino da Cruz fez dos três apertados comôdos construídos no último andar do prédio uma casa aconchegante onde criou dignamente seus filhos. E hoje ele é uma espécie de figura cativa do condomínio, um funcionário de confiança que conhece cada detalhe da construção.
Acho que este é o prédio melhor construído de Londrina, costuma dizer, sem falsa modéstia. A afirmação tem origem, muito provavelmente, nas lembranças que ainda guarda dos ombros esfolados pelo peso dos baldes transbordando de cimento e pelas mãos calejadas pela dura lida. Ele, como ninguém, sabe dar o devido valor a cada azulejo assentado nas paredes.
Com a fala mansa de quem nasceu na pequena cidade de Caculé, Valdivino vai contando sua história, que não foi fácil desde o início: Perdi minha mãe quando tinha um ano de idade. Aos sete comecei a trabalhar na roça fazendo as tarefas que meu pai mandava e, aos 14, me mudei com mais quatro irmãos e duas irmãs para Junqueirópolis, no interior de São Paulo, para abrir uma fazenda. Em 1963 cheguei em Londrina.
Nos primeiros tempos, o baiano recém-casado sofreu com a falta de emprego. Andava por tudo quanto é prédio, disposto a trabalhar em qualquer função, mas estava difícil. Um dia, passando aqui na frente, vi que estavam preparando o terreno para uma construção. Conversando, soube que estavam precisando de um operário. No dia seguinte, meia hora antes do horário marcado, eu estava aqui, relembra Valdivino. Para a gente que vem da roça, não há serviço pesado.
Durante a construção do edifício, exerceu funções de servente, carpinteiro, armador. Quando a construção estava pronta, foi convidado a trabalhar como faxineiro e a ocupar a pequena casa construída na cobertura. Valdivino e a mulher Olga a quem ele chama carinhosamente de portuguesinha não titubearam. Já com dois filhos, o casal na época morava em uma casa em estado precário, que ficava bem ao lado da linha de trem. O convite para vir para cá caiu do céu, define.
Promovido a zelador do prédio há mais de 20 anos, ele admite que a história de sua família está estreitamente ligada à do condomínio. Grato, ele retribui o apoio recebido pelos moradores esforçando-se para fazer seu trabalho da melhor maneira possível. Faço de tudo para agradar e estou pronto para ajudar o tempo todo. Só vou sair daqui se me mandarem embora.
O zelador também não tem a menor intenção de um dia mudar-se de Londrina, a melhor cidade que conheceu até hoje e que lhe deu muitos e bons amigos. Conheço tanta gente que tem até aqueles que chegam a falar que aqui é o prédio do Valdivino, conta, sem resistir à brincadeira: Tá vendo? Tenho até um prédio...
Bem-humorado, Valdivino da Cruz garante que nunca sentiu cansaço. Sua rotina começa às seis da manhã, quando assume a portaria e começa a limpeza da entrada do edifício. Ao meio-dia ele transfere a função para outro funcionário, vai para casa, almoça e... põe o pé nas ruas para enfrentar o segundo turno. Ele passa a tarde fazendo bicos que complementam a renda da família, como trabalhos de dedetização e pequenos consertos. Faço um bocadinho de cada coisa, conta.
No final da tarde, quando a maioria dos mortais vai para casa desfrutar do merecido descanso, o baiano de Caculé reassume sua função no Edifício Associação Rural, onde fica até as 10 horas. Só então desce a escada até a garagem para, pela última vez no dia, entrar no elevador de serviço que o leva até o último andar, onde sobe mais um lance de escada e chega até sua casa.
Foi lá do alto que, por mais de 30 anos, a família viu a cidade crescer, o verde diminuir e os prédios proliferarem-se pela vizinhança. A residência de quarto, sala e cozinha cresceu um pouquinho, ganhou mais um dormitório para abrigar os três filhos (Valdivino e Olga tiveram cinco bebês, mas dois deles morreram).
A mulher reclama do tamanho da cozinha (que não tem mais que 3 x 4 metros) e diz que seu sonho é ter uma casa térrea, onde possa preparar as refeições da família em uma cozinha espaçosa, com móveis planejados. Ela conta que na época dos filhos pequenos era mais difícil, tinha que viver de olho no muro, com medo que um deles subisse e caísse lá de cima. Agora é mais tranquilo, já me acostumei, diz dona Olga, resignada.
PERFIL
Nome: Valdivino Gonçalves da Cruz
Idade: 57 anos
Profissão: zelador
Particularidade: morar num dos pontos privilegiados da cidade
Sonho: viajar com a família à Bahia, sua terra natal
Qualidade: dedicação e amor ao trabalho





