Preço do ônibus separa famílias
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domingo, 11 de janeiro de 2009
Fernando Rocha Faro<br> Reportagem Local 
''Para o pobre, os lugares são mais longe.'' A constatação do escritor Guimarães Rosa, no livro Primeiras Estórias, toma contornos reais e cruéis no cotidiano de famílias londrinenses. O culpado da distância que separa famílias que vivem em diferentes regiões da cidade é o preço da tarifa do transporte coletivo.
Enquanto as empresas do setor brigam na Justiça por um novo aumento (a tarifa atual é de R$ 2), famílias pobres têm de ser conformar com a dificuldade para visitar os parentes separados por quilômetros de ruas, avenidas e rodovias. Com o descompasso entre a renda dos usuários do sistema e o custo para andar de ônibus, os moradores de áreas carentes ficam anos sem ver pai, mãe, filhos. Parentes que não moram nem tão longe assim.
Histórias de retirantes nordestinos radicados no Sul ou Sudeste, que passam anos sem se ver, são comuns. Mas não é preciso ir muito longe para encontrar casos semelhantes. No Jardim Felicidade (Zona Norte de Londrina) mora a dona de casa Genilda Moreira Palhano, 28 anos. A parente mais próxima dela na cidade é a lavradora Geni, 37. Tanto em relação aos laços familiares quanto à distância que separa as duas.
Geni vive e trabalha em Lerroville, na Região Sul de Londrina. Foi lá que Genilda, o marido e os dois filhos, de 1 e de 7 anos, passaram o Natal. Esta foi a primeira visita aos parentes do distrito rural em oito anos. E ela explica o motivo: o alto preço do passe de ônibus, para uma família que depende dos bicos do marido.
Para ela, o passe a R$ 1,80 ''já estaria bom.'' ''Se fosse mais barato eu poderia sair mais vezes de ônibus e levar as crianças também'', assevera. E não só as visitas, mas o dia-a-dia das famílias pobres também é prejudicado pela falta de dinheiro para pagar o transporte coletivo.
Recentemente, para regularizar a situação do imóvel onde vive há quatro anos, precisou ir até a sede da Companhia de Habitação (Cohab-Ld). Por falta de dinheiro, optou pela caminhada. Uma hora de caminhada para ir e outra para voltar. ''Para ir de mototáxi é ainda mais caro. Se tivesse dinheiro iria de ônibus mesmo. Mas não dá'', lamenta.
Difícil para quem tem saúde para caminhar, pior para os doentes. Como o atendimento médico adequado muitas vezes fica longe de casa, os pacientes dependem da distribuição de passes feita pela Assistência Social. Ainda assim, as dificuldades persistem.
Com frequencia, o pedreiro Sebastião Gabriel de Lima, 43, morador do Jardim Marieta (Zona Norte), precisa enfrentar viagens de ônibus para levar a esposa Maria de Lourdes Salvador a hospitais em outras regiões da cidade. O problema, segundo ele, é que o benefício não é estendido ao acompanhante. O resultado é que o pouco dinheiro da renda familiar, que depende dos bicos que o construtor consegue, não é suficiente para todas as viagens.
A dona de casa de 52 anos sofre de úlcera e o tratamento exige uso de medicamentos caros. ''Só um remédio custa R$ 200. Vou tentar conseguir na assistência. Não tem como a gente pagar e também não temos o suficiente para ficar andando de ônibus. Se a gente está acompanhando um doente acho que também não devia pagar'', opina o pedreiro, que também faz bicos na coleta de material reciclável.
Ir ao médico é difícil. Já visitar os parentes que moram longe é praticamente um luxo. Com familiares no Parque Ouro Branco e no Jardim Piza, ambos na Zona Sul, e no Jardim Califórnia, na Região Leste, Sebastião Lima tem poucas oportunidades de visitar a irmã, os sobrinhos e a enteada. ''Fui passar o Natal lá. Agora vamos dar um tempo porque com o que ganho na reciclagem fica difícil'', diz, resignado.


