Londrina - "O pessoal brinca que tenho mais ciúme do caminhão do que da minha mulher. Não é bem verdade." Com um sorrisinho de canto de boca, o servidor público José Luiz da Silva, o Zezão, 53 anos -24 deles trabalhando na Prefeitura de Londrina-, admitiu o carinho que sente pela principal relíquia da frota municipal: o velho Internacional NV 184 ou, simplesmente, Televisão, apelido ilustrativo dado ao caminhão que hoje é pau para toda obra no município.
Com 44 anos bem vividos, o Televisão -a brincadeira nasceu porque a frente do veículo lembra um aparelho de tevê antigo- já viu de tudo. Vindo dos Estados Unidos, o modelo de 1964 foi comprado pelo prefeito da época para ser utilizado pelo Corpo de Bombeiros e chegou a Londrina desmontado. Segundo Zezão, o caminhão foi encostado anos atrás quando a oficina da prefeitura foi fechada e só voltou à ativa por causa do motorista.
"No início, eu trabalhava como eletricista para a prefeitura, mas tive um problema de saúde e precisei mudar de função. Virei, então, o motorista do Televisão, já que era o único que conseguia guiá-lo sem dificuldade", contou Zezão, que há 12 anos é o único trabalhador a fazer funcionar o velho motor a diesel do NV 184.
Vermelho sangue, capacidade para dez toneladas e duas panteras negras adesivadas na lataria fazem do Televisão um veículo único. As marcas da antiga bomba d’água, que ajudava o trabalho dos bombeiros, ainda permanecem no capô do caminhão. "Ele estava abandonado e, como eu sempre gostei de trabalhar com caminhão, resolvi cuidar do bichinho. Ele só está bonito assim porque a manutenção é diária."
Estacionado na garagem da Secretaria Municipal da Agricultura, no Parque Arthur Thomas (Zona Sul), o Internacional NV 184, além de mais antigo, é o faz-tudo da frota municipal. Mas, hoje, trabalha apenas meio período, como seu motorista. Conforme Zezão, o veículo já "puxou pneu, máquina de esteira, carregou merenda, caminhão velho e até já ficou à disposição da Escola de Dança e do Procon", enumerou.
"Precisando, eles chamam o Zezão", brincou o servidor, que já desfilou em duas paradas de 7 de setembro com a relíquia. "Sempre que passo com ele na rua, os mais velhos comentam, relembram as histórias do modelo", comentou Zezão, que já transportou escombros de casas destruídas por incêndios e até carregou mudanças na carroceria vermelha.
Imagina-se que com mais de quatro décadas de uso, o caminhão já tenha passado por diversas reformas. Ledo engano. Segundo o motorista, até hoje ele recebeu apenas uma pintura. "Por ser importado, as peças da lataria são mais difíceis de encontrar. Se bater, tem que ficar encostado. Já a mecânica tem peças nacionais que dão conta", declarou Zezão, assinalando que de tão velho, o veículo já não paga mais pedágio.
"Quando me aposentar, gostaria que o caminhão fosse levado ao Museu Histórico, afinal é um patrimônio da cidade", sugeriu o motorista, acionando, ao longe, a buzina do vermelhinho.

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