A entrada de novos medicamentos que combatem a impotência sexual, com a quebra da patente do Viagra, em julho passado, está ajudando a melhorar a qualidade de vida de muitos homens. Só que essa ‘‘popularização’’ vem colocando especialistas em alerta. O fácil acesso - não é exigida receita médica para a compra - combinado ao preço mais acessível são fortes atrativos àqueles que não necessitam efetivamente, mas tomam o medicamento acreditando ter um desempenho potencializado.
  Boa parte desse público que usa sem necessidade é formada por jovens que combinam álcool e drogas ilícitas ao medicamento. As drogas causam a diminuição do potencial de atividade sexual e, para compensar o efeito depressor, algumas pessoas tomam estimulantes sexuais. ‘‘Em alguns casos o consumo excessivo pode levar a uma parada cardíaca, às vezes irreversível’’, alerta o cardiologista Evander Botura. Os efeitos colaterais são iguais em qualquer idade, variando com a suscetibilidade de cada indivíduo.
  Drogas para aumentar a potência sexual têm como efeitos colaterais: dor de cabeça, rinite, obstrução nasal e, às vezes, sensação de calor no rosto. De acordo com as informações farmacológicas desses produtos, a utilização deve ser corrigida apenas por pessoas com alteração hepática ou renal. Também não deve ser usado por pessoas com insuficiência coronariana, arritmias cardíacas, hipertensão arterial sem tratamento ou degeneração da retina.
  Para piorar, os remédios falsificados aparecem na lista dos mais procurados, mas não possuem qualquer certificação de qualidade ou procedência. Apesar da preocupação, as consequências do uso indiscriminado e da automedicação recreativa são desconhecidas.
  O cardiologista Botura afirma que a disfunção erétil pode ser um claro indício de doença cardiovascular. ‘‘Todo homem com disfunção erétil, mesmo sem sintomas cardíacos, deve ser considerado portador de doença cardiovascular até que se comprove o contrário. Portanto, não pode ser tratado com Viagra ou medicamentos desse tipo. O problema é no pênis, mas também é preciso ser visto do ponto de vista vascular, já que a ereção é um fenômeno vascular. O médico que recebe esse paciente deve estar atualizado com o conceito de que disfunção erétil é o marcador de doença cardiovascular.’’
  Além da preocupação do uso desnecessário, fica a dúvida com relação à dependência. ‘‘Não há relatos de que esses remédios podem viciar’’, afirma o cardiologista que, em seguida, faz um alerta. ‘‘Esse tipo de medicamento, entretanto, não deve ser utilizado em conjunto com nitrato. Essa mistura pode causar a morte. Por isso é importante que em uma emergência os profissionais perguntem para o paciente se ele fez ingestão do medicamento, pois o nitrato é uma droga de rotina nos hospitais.’’
  Mário Paranhos, presidente da Central de Eventos da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), diz que ainda não existem trabalhos científicos que mostram existir taquifilaxia, ou seja, perda da eficácia do medicamento com o uso contínuo. ‘‘O que pode existir, e temos exemplos de atendimentos diários, é que o jovem que usa de forma indiscriminada esses medicamentos, quando necessita deles de forma mais precisa, vai ter um componente psíquico muito alterado para seu uso. Dessa forma, ele sente uma perda da efetividade do medicamento’’, ressalta.
Consumo
  Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que existem hoje no mundo 150 milhões de homens com disfunção erétil. Em 2025, serão 300 milhões. Somente no Brasil, estima-se que esse número fique entre 10 a 20 milhões. O Viagra é hoje o estimulante sexual mais conhecido no mundo. O Brasil é o segundo maior consumidor, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Dados de pesquisas indicam que o medicamento para disfunção erétil foi o mais vendido na história da medicina.
  Desde que expirou a patente, vários concorrentes já se lançaram no mercado com a mesma formulação da ‘‘pílula azul’’, o que reduziu o preço. Tanto que o próprio Viagra já é encontrado pela metade do valor. Além disso, cerca de cinco laboratórios produzem o medicamento com a mesma finalidade. O mais recente é um de dosagem menor para ser ministrado diariamente, como qualquer outro de uso contínuo.

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