Prazer do consumo pode esconder compulsão
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Chiara Papali<BR> Reportagem Local 
As placas de Promoção, Oferta e Desconto em vitrines de lojas costumam mexer com a cabeça principalmente das mulheres, que veem nos anúncios a possibilidade de uma boa compra. E pode ser mesmo. Mas, se você simplesmente não resiste, tendo ou não dinheiro, cuidado isso pode ser sinal de compulsão, comportamento que compromete não só a saúde financeira, mas a emocional.
Para a jovem B., que prefere não se identificar, comprar roupas sempre foi sinônimo de felicidade. Minha diversão era arrumar meu guarda-roupa. Quando eu comprava era tão bom, me dava tanto prazer, que parecia que a minha vida é que era nova, conta. Mas, o que era bom começou a virar uma verdadeira bola de neve ela chegou a acumular uma dívida de R$ 15 mil, que lhe custou mais de três anos para pagar e meses sem comprar uma agulha.
Especialista em psicanálise, a psicóloga Mírian Perandrea, de Londrina, explica que um dos sinais de compulsão é quando pessoa fica escrava da situação, e isso pode acontecer também com comida, bebida, sexo e até trabalho. Satisfação saudável é ter domínio da ação. Mas, se a pessoa age sem reflexão, é escrava. Isso é compulsão, vício, afirma.
A psicóloga explica que é saudável ter prazer em comprar uma roupa nova. Mas não quando isso é uma fuga. Aí, não é mais para obter prazer, mas para fugir do desprazer, de uma angústia inconsciente, ressalta.
Como saber o limite entre o prazer e a compulsão? Uma das maneiras, segundo a psicóloga, é se perguntando se você vive para comprar ou compra para viver. Estar atento aos prejuízos que o hábito causa para si mesmo também é importante. No caso da compulsão por compras, o que mais aparece é a desorganização da vida financeira. Não é raro a pessoa gastar antes mesmo de receber, avalia.
O pensamento adulto, explica, permite que a pessoa possa postergar a satisfação imediata no caso, a compra por algo melhor no futuro: o recebimento de dinheiro, por exemplo, ou a possibilidade de economizar para uma compra maior. O pensamento adulto permite reflexão, o que leva a uma satisfação sem risco. Já, o infantil, leva à satisfação imediata, que traz riscos como uso de cheque especial e do cartão de crédito, mesmo que a pessoa não tenha dinheiro. A compulsão é um sinal de imaturidade emocional, diz Mírian.
A pessoa busca ajuda quando percebe que algo não vai bem, por conta do sofrimento que os sintomas provocam. Mas, quando o vício é muito arraigado, além da psicoterapia pode ser necessário a participação em grupos de autoajuda, que funcionam como uma medida educativa para reorganizar a vida e ajudar a lidar com as dívidas. Os grupos são importantes porque a pessoa encontra outras que estão na mesma situação e neles a ajuda é para reorganizar a vida de maneira consciente. Mas não há cura se não for tratada a causa inconsciente, afirma.
A psicoterapia vai trabalhar a carência que está por trás de toda compulsão, e uma vez que isso aconteça não será mais preciso buscar em outro objeto a ilusão do prazer e a fuga do desprazer. E, aí, até as promoções, enfim, poderão ser bem aproveitadas. Não é porque está em promoção, e você não precisa, que vai comprar. Você tem que ter a listinha dos seus desejos internos e não ficar submetido a uma força que vem de fora, pondera a psicóloga.


