Luiz Pradal, 76 anos, acaba de concluir uma empreitada e tanto na sua vida. Ele terminou de transcrever a Bíblia pela segunda vez e à mão. Foi mais de um ano de trabalho, período em que foram consumidos 18 cadernos grandes e mais de 60 canetas. Ao contrário do que possa parecer, a transcrição não foi um exercício de fé ou um simples passatempo. ‘‘Minha salvação não vai depender de quantas vezes eu li ou transcrevi a Bíblia. Fiz isso para ganhar mais conhecimento e também para driblar uma insônia’’, comenta.
Evangélico, membro da Igreja Metodista, Luiz Pradal resolveu transcrever a Bíblia, pela primeira vez, há mais de cinco anos. Na época, a decisão ocorreu após alguns amigos duvidarem de que ele a havia lido várias vezes. ‘‘Pensei comigo: ‘Eu vou mostrar a eles que eu li. Para isso resolvi escrever as mais de mil páginas do livro com letra de forma.’
Passados alguns anos, voltou a idéia de repetir o trabalho após noites e mais noites em claro. ‘‘Lembrei-me que quando estava transcrevendo a Bíblia me dava um sono bom. Foi então que resolvi fazer tudo de novo.’ Desta vez, Luiz Pradal escreveu com letra de mão e só não usou menos tempo para concluir a transcrição porque, no meio da empreitada, teve que ser submetido a uma cirurgia para colocação de três pontes de safena.
Para quem pensa que a idéia surgiu por falta do que fazer, Luiz Pradal informa: ‘‘Pode até parecer, mas não foi.’’ Embora seja aposentado - ele não gosta da palavra por considerar que por trás dela está o estigma da desocupação - seus dias são cheios de compromissos. Ele é bastante ativo na igreja que frequenta e ainda faz sachês e perfumes para complementar a aposentadoria, de pouco menos de quatro salários mínimos.
A casa onde mora com um filho e a esposa Aurora também vive cheia de gente. São 11 filhos, 17 netos e cinco bisnetos para preencher os poucos momentos de folga. ‘‘Às vezes minha casa parece pequena.’’
Na rotina da transcrição, Luiz Pradal colecionou algumas curiosidades. ‘‘Anotei mais de 40 profissões que aparecem na Bíblia, sendo que muitas delas a gente pensa se tratar de ocupações mais modernas.’’ Entre elas, ele cita as profissões de alfaiate, banqueiros (que aparecem já na época de Jesus), construtores, entalhadores, perfumistas e agrimensor.
‘‘Eu fui auxiliar de agrimensor quando jovem e pensava se tratar de uma profissão mais moderna. Que nada. Ela já existia há mais de quatro mil anos. Também fiquei feliz em ver que a profissão de perfumista é tão antiga quanto o universo. Deus sempre se agradou com perfumes,’’ comenta.
Outra curiosidade citada por Luiz Pradal é o papel da mulher no desenvolvimento da história. ‘‘Sabe que o primeiro juiz que se tem notícia foi uma mulher?’’ Ele conta que trata-se de Débora, que viveu há cinco mil anos antes de Cristo. ‘‘Ela reunia o povo de Israel embaixo de palmeiras para julgar seus atos. A mulher sempre teve um papel de destaque no mundo, salvo em determinadas épocas em que foi mais submissa.’’
A Bíblia transcrita por Luiz Pradal foi o livro revisado do padre João Ferreira de Almeida. Mas ele usou outras duas para pesquisa: A Bíblia de Jerusalém e a de referência Thompson, ilustrada e comentada. As duas últimas trazem mapas antigos das regiões onde se passaram as histórias relatadas e neles Luiz Pradal fez viagens intermináveis. ‘‘Todas as referências de regiões que lia procurava nos mapas. Quando ouço algum noticiário na TV que fala desses lugares, também os procuro no mapa.’’
Além dos conhecimentos bíblicos, portanto, Luiz Pradal ampliou seus horizontes em geografia, história e também em português. ‘‘É um ótimo livro para aprendermos nossa língua’’, ensina. Aprender é uma sempre uma obsessão para seu Luiz. ‘‘Não pude fazer isso quando criança. Só pude estudar depois de velho.’’
Luiz Pradal conta que sua vida não foi fácil. Ao nascer, em Avaré, em 1922, sua mãe morreu durante o parto. ‘‘Meu pai lutou, na Itália, na 1ª Guerra Mundial, e tinha neurose de guerra. Costumava dizer que em suas veias corria pólvora e não sangue.’’ Resultado: em 32, ele foi embora para lutar na Revolução constitucionalista, em São Paulo, e nunca mais voltou. ‘‘Eu e meu irmão fomos criados por parentes e famílias que simpatizavam com a gente.’’
Com essas famílias, ele morou em muitos lugares. Para Londrina, já casado, ele veio em 1948. O primeiro emprego foi na empresa Prudência Capitalização. ‘‘Mas para mim, que era meio caipira, esse trabalho era difícil. Saí e fui trabalhar no comércio.’’ Na religião, seu Luiz Pradal diz ter encontrado a paz, especialmente nos momentos que está estudando a Bíblia.
O carinho pelo trabalho que faz de transcrição do livro é tanto, que ele sempre o termina de forma especial. Da primeira vez, fez questão de gravar Ave Maria, de Schubert, cronometrar o tempo da música e quanto escrevia no mesmo período. ‘‘Exatamente quando terminava a música, com a palavra Amém, eu escrevia a última palavra do Apocalipse: Amém’’. A emoção foi tão grande que ele diz ter se desmanchado em lágrimas. ‘‘Uma emoção que eu não deveria ter provocado, porque sou cardíaco.’’
Para a segunda vez, ele reservou uma música mais alegre, ‘Pompas e Circunstâncias’. Dessa vez, ele diz, foi uma explosão de alegria, o que deixou o coração mais aliviado. Luiz Pradal não pretende repetir a dose. Mas ele gostaria que seu trabalho fosse visto como um exemplo pelas demais pessoas.
‘‘Gostaria que todos tivessem a Bíblia sempre à mão para fazer a leitura nos momentos de folga. Se todos a lessem, o mundo seria outro. Não seria preciso Constituição e nem leis, como o Código de Trânsito. Ela nos ensina a respeitar o próximo. Para mudarmos o mundo, não é preciso mexer no bolso dos homens. É necessário mexer em suas almas.’’

PERFIL

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