Pracinhas revivem hora do vai ou racha
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de fevereiro de 1997
Apolo Thedoro 
Marcos Borges
Arquivo particular
Arquivo particular
LembrançasAcima, o soldado-artilheiro Ramos descansa sobre sua arma após a conquista de Monte Castelo, em fevereiro de 1945: Foram dois dias sem comer, tinha soldado que chorava de fome. Ponte sobre o rio Pó, construída pela engenharia do Exército brasileiro em duas horas: rapidez e eficiência. E os pracinhas Antonio de Oliveira Ramos (E) e Custódio Florentino de Lima (D): antes, momentos de medo no front; hoje, a luta para não serem esquecidos
Enquanto o Brasil sambava no domingo de Carnaval de 1945, na Itália os pracinhas brasileiros rebolavam para se livrar das balas alemãs na arremetida final contra Monte Castelo, naquele 21 de fevereiro do ano em que a paz voltou ao mundo depois de 6 anos de guerra. Foram 12 horas de intenso tiroteio: os alemães lá em cima, protegidos pelas pedras, e os brasileiros embaixo, tentando subir debaixo de intenso tiroteio.
Depois de três tentativas fracassadas no ano anterior, antes de o inverno ficar mais rigoroso, era a hora do ou vai ou racha. E os soldados, apoiados pela artilharia e pela aviação, foram em frente, metro a metro, até chegar ao topo. Vitória que nem pôde ser comemorada - novas batalhas os aguardavam pela frente.
Eu nunca tinha visto igual. Só em Montese, depois, teve outro tiroteio parecido. Era bala pra todo lado, bombas explodindo, fogo e fumaça que cobriam tudo o dia inteiro. Tivemos muitas baixas e quando chegamos lá em cima tinha alemão e italiano morto pra todo lado, os outros fugiram, lembra o sargento Florentino, destacando que, no entanto, pior do que a batalha final de Monte Castelo, foi a primeira.
Na primeira tentativa o pessoal estava com muito medo. Os alemães estavam a mais ou menos 30 metros da gente, mas protegidos pelas pedras, enquanto nós estávamos na beira da estrada. Foi a hora mais triste, pensei que não ia voltar, é a hora que o nego perde até a fala de tanto medo. Eu, como sargento, tinha que animar os soldados porque aquela era a hora decisiva, era matar ou morrer.
E os dois pracinhas vão revelando acontecimentos que, se não estão nos registros oficiais, fazem parte da história de uma guerra que mudou os rumos do mundo. O soldado Ramos, por exemplo, lembra da vez em que as tropas aliadas tiveram de recuar de uma posição duramente conquistada. Motivo: responsáveis pela guarda, os soldados de um batalhão constituído só por negros norte-americanos encheram a cara de uísque e se esqueceram que estavam na guerra.
Ficaram bêbados e afrouxaram a guarda, os alemães desceram de volta e, pegos desprevenidos, fomos obrigados a recuar, destaca Ramos, observando que, no entanto, naquela mesma noite, outra tropa brasileira, o 6º Regimento, contra-atacou e empurrou os alemães pra cima de novo.
Florentino, por sua vez, lembra da sofrida jornada pelas geladas montanhas do Norte da Itália, a caminho de Montese. Passamos muito frio e, pior, a comida não chegava até onde estávamos. Os alemães, do alto, atiravam nos burros que transportavam a comida e o alimento se perdia todo. Foram 2 dias sem comer, tinha soldado que chorava de fome, sustenta o sargento reformado.
Esfomeados, contam, o jeito foi apelar para a intragável ração diária dos soldados americanos - composta por uma barra de chocolate, dois biscoitos, latinha de carne, além de dois cigarros e fósforo. Teve um cara que desmaiou na hora que deram uma barra de chocolate pra ele. Muita gente não conseguia comer e jogava fora, outros vomitavam, foi parar gente no hospital, conta Florentino, destacando que seu estômago aceitava bem a comida dos americanos, tão bem que ele comia, além da sua, as rações que os outros soldados jogavam fora.
E, se os soldados brasileiros passaram frio e fome nas montanhas italianas, nem por isso perderam o velho espírito da galhofa que tão bem distingue a raça brasilis. Estômagos roncando, lembra o soldado Ramos, qual não foi a surpresa quando apareceu alguém oferecendo rolos de papel higiênico. Aí, não demorou muito, um pracinha comentou em voz alta: Pra que papel higiênico? A gente não está nem cagando!
Vencida a montanha, destaca Florentino, os pracinhas brasileiros foram tomando os lugarejos e vilas - Era um combate atrás do outro - até a entrada de Montese, onde chegaram no dia 13 de abril de 1945. Chegamos de manhã. Foi combate o dia inteiro, um verdadeiro inferno de fogo, os aviões da FAB bombardeando. Os alemães minaram toda a entrada da cidade e tivemos que esperar que desativassem as minas para a gente entrar, recorda o pracinha/sargento, e continua:
Mataram muita gente. Tinha uma metralhadora na torre da igreja e foi duro tirar os alemães de lá. Ainda bem que uma bomba de canhão atingiu a igreja, destruiu tudo, e pudemos avançar, relata, destacando que Montese foi tomada no dia seguinte e, daí em diante, continuaram a perseguir os alemães até as imediações de Turim, para evitar que eles se reagrupassem.
E foi em Turim, lembram os pracinhas, que papéis foram jogados de aviões na linha de frente pedindo para cessar os combates porque os alemães haviam se rendido em todas as linhas. Era o dia 28 de abril de 1945. Dali a 10 dias, a 8 de maio, os alemães se renderam incondicionalmente aos aliados. Em Turim, foi aquela festa. Ao entrarem na cidade, os pracinhas foram recebidos como heróis e saudados pelo povo como brasiliano liberatore.
Os italianos faziam a maior festa, jogavam flores, puxavam a gente da fila, foi aí que começamos a sentir o gostinho da vitória, observa Ramos, com a anuência de Florentino que, por sua vez, assegura ter sido tanta a euforia dos italianos com a volta da liberdade que teve gente que morreu de abraço apertado.
Nem só de tiros e bombas é feita uma guerra. Desses acontecimentos paralelos às batalhas, Ramos se lembra do dia em que o capelão chegou até ele, colocou a coifa (pano de proteção) na boca do seu canhão e, pra surpresa geral, gritou: Hoje não vai ter tiro, é Sexta-feira Santa no Brasil e aqui também. Foi uma trégua dos dois lados, mas no outro dia, no sábado, arrebentou a aleluia de tanta bomba na nossa cabeça, brinca o ex-soldado da FEB.
Outra lembrança de Ramos foi o esporro que levou de um oficial, já depois da guerra, por ter dado cigarros aos soldados alemães prisioneiros. Eles estavam matando a gente, agora você dá cigarro pra eles?, foi a parte mais leve da reprimenda que o soldado Ramos recebeu do oficial e que o deixou muito envergonhado por ter sido na frente de todo mundo.
Aliás, sobre os oficiais brasileiros da época em que serviu, a opinião do ex-soldado não é das melhores. Formados dentro dos moldes franceses, os oficiais, segundo ele, eram muito cheios de si. Onde eles estavam não podia nem chegar perto; se a gente estivesse deitado e passasse um deles, tinha que levantar e fazer continência. Era muita disciplina, mas na guerra não valeu de nada.
Recordando ainda, Florentino, hoje, ri do acontecido, mas no dia em que o capelão, frei Orlando, procurou-o para uma conversa, sentiu um calafrio. Escalado para uma missão muito perigosa, a conversa, na realidade, era uma verdadeira confissão já que havia o risco do batalhão não voltar. Foi como se ele estivesse me dando o atestado de óbito, brinca Florentino, que não só cumpriu a missão, como recebeu uma condecoração do 5º Exército Americano, uma medalha de bronze, por bravura em combate, medalha que, para sua decepção, nunca chegou em suas mãos.
Puxando mais pela memória, Florentino se lembra da vez em que se preparava para observar a movimentação do inimigo que estava a 50 metros de distância, o soldado Ribeiro fez-lhe um pedido comovedor: Sargento, deixa eu ir no seu lugar, o senhor vai fazer falta se morrer; eu não, porque tem muito soldado. O sargento agradeceu, mas seguiu em frente. Foi assim, um por todos, todos por um, até o último dia da campanha, destaca Florentino.
Também continuam vivas na lembrança deles a rapidez e a eficiência da engenharia do Exército de Aquidauana, Mato Grosso, que em duas horas construiu uma ponte sobre o rio Pó; recordam ainda de uma brasileira quinta coluna que, de uma rádio em Milão, tentava convencer os soldados brasileiros a se renderem. Ela dizia que se a gente se entregasse em dois dias estaria de volta ao Rio de Janeiro. A danada, pra nos convencer, inventava até nomes de alguns soldados que já haviam se rendido, nomes bem brasileiros como João Pereira da Silva, Joaquim Alves dos Santos. Era a maior fria, destaca Ramos.
Finda a guerra, eles voltaram para o Brasil e, após desembarque no Rio de Janeiro, participaram de um desfile na avenida Rio Branco quando foram saudados por milhares de pessoas que lhes atiravam bacias e mais bacias de flores. Mas, se essa lembrança é boa, as outras recordações vividas na Itália fazem Florentino afirmar filosoficamente:
Guerra não presta pra ninguém, nem pra quem ganha. E, cheio de razão, diz que quem faz a guerra fica no palácio e quem vai enfrentar a bucha é o povão. Indagado se sentia raiva dos alemães, o pernambucano saiu com essa: áRaiva não, eu tinha era medo. Mas, aqui pra nós, os alemães eram muito valentes até aparecer o brasileiro na guerra. Chegamos lá, vencemos, então somos mais valentes que eles.


