Milton DóriaCombatentesAntônio Ramos e José Soares Neto: lembranças do campo de batalhaAmanhã faz 53 anos que os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram protagonistas de uma das batalhas mais difíceis da Segunda Guerra Mundial: a tomada de Monte Castelo, no norte da Itália. Naquele dia, depois de quatro tentativas frustadas, os combatentes finalmente conseguiram vencer os soldados alemães. Foi uma das últimas resistências nazistas na Europa. Pouco tempo depois, os países do Eixo, liderados por Adolf Hitler, eram definitivamente derrotados pelos Aliados.
Os combates de Monte Castelo - e outros na Itália, como o de Montese - tiraram a vida de muitos brasileiros e permanecem vivos na memória dos que voltaram para o Brasil, depois de quase um ano no front. Passado mais de meio século, no entanto, os ex-pracinhas reclamam do esquecimento. ‘‘Ninguém se lembra mais de nós. Nem na escola. Os mais jovens não sabem que muitos brasileiros participaram da guerra’’, diz Antônio de Oliveira Ramos, 73 anos, integrante da artilharia e que foi combater na Itália junto com o segundo escalão de soldados.
Ao todo, foram seis escalões da FEB enviados para a Itália, reunindo mais de 25 mil homens - 474 morreram em combate e 2,8 mil foram feridos ou sofreram acidentes. Um deles foi José Soares Neto, hoje com 76 anos. Na batalha, ele foi atingido por um estilhaço de morteiro no ouvido esquerdo. Nunca mais recuperou a audição. Ele pertenceu ao primeiro escalão que foi à Europa. ‘‘Aquilo fica na memória da gente a vida toda. Vi companheiro meu caindo em combate, muita fumaça. Você lutava mas não conseguia enxergar nada’’, lembra Soares.
José Soares Neto atuava no front, muito perto dos alemães. Ele recorda que ninguém conseguia dormir, durante a guerra, porque os adversários atiravam de hora em hora. A tática, para tentar vencer os brasileiros pelo cansaço, era conhecida na época por ‘‘tiro de inquietação’’. ‘‘Mas isso acontecia quando estava tranquilo, a gente até se acostumava. Já quando começava algum combate, era tiro, morteiro, fumaça para todo lado’’, diz ele. ‘‘Virava um horror.’’
José Soares estava na enfermaria, junto com outros soldados feridos, quando recebeu a notícia da tomada de Monte Castelo. ‘‘Foi uma festa, uma farra total. Travesseiros voaram para todo o lado. Foi como se tivesse acabado a guerra, porque dali os alemães não tinham mais como resistir.’’ No mesmo dia, houve também muita comemoração no Brasil. Mas não porque souberam da vitória na Itália. Na verdade, aqui era domingo de Carnaval.
O ex-combatente também concorda com o velho colega Antônio Ramos - ambos moram em Londrina - e diz que hoje em dia são poucos os que se lembram e dão atenção aos velhos heróis de guerra. ‘‘Quando a gente voltou da Itália, no Rio de Janeiro, em qualquer lugar que entrava era bem recebido. Teatro, cinema. Mas depois foram se esquecendo’’, lamenta o ex-combatente. ‘‘E acho que a participação brasileira na guerra é uma parte importante na História do Brasil. Nunca deveria ser esquecida.’’
Há três anos, quando a tomada de Monte Castelo completou 50 anos, Antônio de Oliveira Ramos voltou à Itália, para rever os locais dos combates. Ficou hospedado na casa de um velho amigo brasileiro e também colega de batalhas, que hoje cuida do cemitério Campo Santo. Foi lá, na cidade de Pistóia, onde os brasileiros mortos em batalha foram sepultados. ‘‘Durante a guerra ajudei a enterrar amigo morto, naquele cemitério. Hoje, infelizmente, ninguém lembra de nós.’’

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